Mudanças climáticas impulsionam expansão de doenças infecciosas no Brasil

Destaques
- •Número de microrregiões com dengue em nível epidêmico mais que dobrou entre 2006 e 2024.
- •Aumento de temperaturas e eventos extremos favorecem a disseminação de dengue, febre do Oropouche, leptospirose e fungos como Candida auris.
- •Especialistas alertam para a dificuldade de reverter a expansão da dengue e o risco aumentado para populações vulneráveis.
As mudanças climáticas estão alterando significativamente a distribuição de doenças infecciosas no Brasil. Um estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) revelou que o número de microrregiões brasileiras com níveis epidêmicos de dengue saltou de 110 para 292 entre 2006 e 2024. O aumento das temperaturas médias e a ocorrência de eventos climáticos extremos, como enchentes e queimadas, são apontados como fatores cruciais para essa expansão, que também preocupa especialistas quanto ao impacto sobre outras enfermidades como febre do Oropouche, leptospirose, hantavirose e infecções fúngicas.
O avanço do mosquito Aedes aegypti, vetor da dengue, para regiões antes menos afetadas é notório. Em 2024, o Rio Grande do Sul registrou quase 210 mil casos confirmados de dengue e 281 mortes, superando em número de infecções a Bahia, que teve cerca de 163 mil casos e 188 óbitos. A pesquisa da Fiocruz identificou que 292 microrregiões, o que representa 54% do território nacional, apresentaram níveis epidêmicos da doença. As anomalias térmicas, ou seja, temperaturas muito acima ou abaixo do usual, foram o principal indicador climático associado ao aumento da incidência da dengue a longo prazo.
Expansão irreversível e fatores de risco
Os pesquisadores da Fiocruz alertam que o processo de expansão da área de transmissão da dengue parece ser irreversível. Uma vez que o vírus e o mosquito vetor se estabelecem em uma nova região, é improvável que se retorne a um cenário de transmissão zero. O infectologista Celso Granato explica que o calor excessivo acelera o metabolismo do Aedes aegypti. Em temperaturas elevadas, os mosquitos precisam se alimentar com maior frequência para obter energia, o que aumenta a probabilidade de transmissão da doença.
A febre do Oropouche, que antes era restrita à Amazônia, também expandiu seu alcance, com mais de 12 mil infecções registradas em 23 estados e no Distrito Federal em 2024. Embora a relação direta com as mudanças climáticas ainda esteja sob investigação, alterações nos padrões de temperatura e chuva, aliadas à degradação ambiental, podem ter contribuído para sua disseminação.
Eventos extremos e novas ameaças à saúde
Eventos climáticos extremos como enchentes e queimadas intensificam outros riscos à saúde pública. As enchentes facilitam a disseminação da leptospirose, transmitida pela urina de ratos, e aumentam o risco de hepatite A e infecções gastrointestinais devido à contaminação da água por esgoto. Após as enchentes no Rio Grande do Sul, a incidência de leptospirose aumentou consideravelmente, segundo Celso Granato.
As queimadas, por sua vez, podem forçar roedores infectados a se aproximarem de áreas residenciais, elevando o risco de hantavirose, uma doença que pode causar síndrome cardiopulmonar grave. Desde 2016, o Brasil registrou 530 casos e 212 mortes por hantavirose, com uma taxa de letalidade de 40%.
Fungos se adaptam ao calor e preocupam autoridades
As mudanças ambientais, especialmente o aumento da temperatura, também favorecem a proliferação de fungos patogênicos que antes não prosperavam em condições tão quentes. A professora Sarah Gonçalves Tavares, da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), destaca que o calor é um fator chave nessa adaptação.
Um exemplo preocupante é a Candida auris, um fungo multirresistente que sobrevive em altas temperaturas e persiste no ambiente por longos períodos. O primeiro caso no Brasil foi identificado em 2020, na Bahia, e desde então, 24 ocorrências foram registradas em 15 estados, todas em ambientes hospitalares. Entre 146 pacientes colonizados pelo fungo, 56 faleceram, e a taxa de letalidade em casos de infecção na corrente sanguínea chegou a 82%, representando um risco elevado para pacientes imunodeprimidos.
Outro fungo de atenção é o Trichophyton indotineae, associado a infecções de pele resistentes a tratamentos antifúngicos. O gênero Aspergillus, que se desenvolve em ambientes quentes e úmidos, também pode expandir sua área de incidência com as alterações nos padrões de temperatura e umidade globais.
Matérias originais
- Como as mudanças climáticas favorecem doenças infecciosas no Brasil · olhardigital.com.br


