Movimento Empresarial pela Saúde discute desafios e soluções para o cuidado do trabalhador

Destaques
- •Movimento Empresarial pela Saúde (MES), liderado pelo SESI, reúne empresas e especialistas para discutir a gestão da saúde dos trabalhadores.
- •A fragmentação do atendimento e a falta de integração de informações clínicas são apontadas como entraves que geram redundância e custos extras.
- •O MES busca soluções em prevenção, modelos sustentáveis de saúde suplementar, dados e inteligência em saúde, e na cadeia de valor da indústria.
Afastamentos, doenças crônicas e a dificuldade em encontrar um cuidado contínuo e adequado são realidades que afetam trabalhadores e empresas. Com o envelhecimento da população e tratamentos que se estendem por anos, a pressão sobre os programas de saúde corporativa aumenta. Uma das principais críticas é que a assistência ainda se concentra no tratamento reativo, após o surgimento da doença, e nem sempre o atendimento segue uma trajetória integrada, com o histórico do paciente acompanhando-o entre diferentes serviços.
Esses desafios são o foco do Movimento Empresarial pela Saúde (MES), uma iniciativa que congrega empresas, especialistas, instituições e representantes do poder público. Liderado pelo Serviço Social da Indústria (SESI), o movimento conta com o apoio da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI). Segundo Emmanuel Lacerda, superintendente do SESI, a saúde corporativa é estratégica, pois influencia diretamente a qualidade de vida, a capacidade de trabalho e o absenteísmo nas organizações.
Prevenção e acompanhamento integrado
Uma das frentes de atuação do MES é a prevenção, com o acompanhamento de indivíduos que apresentam fatores de risco ou condições crônicas. O objetivo é intervir precocemente, antes que o quadro evolua para quadros mais complexos e onerosos. No entanto, essa abordagem esbarra na falta de conexão entre os diferentes serviços de saúde. Greyce Guasselli, coordenadora do MES, destaca que a falta de integração das informações clínicas do trabalhador resulta em uma jornada morosa, com atendimentos, exames e intervenções isolados, que se comunicam pouco e acabam sendo realizados de forma redundante e desordenada.
Essa fragmentação também impacta a saúde suplementar. A organização do percurso do paciente, a evitação de procedimentos repetidos e a ação preventiva antes do agravamento de doenças são vistas como formas de otimizar o uso de recursos sem comprometer a qualidade da assistência. A análise de dados de saúde é fundamental para traçar perfis de funcionários, identificar grupos vulneráveis e direcionar ações.
Tecnologia e o olhar humano
A inteligência artificial e a interoperabilidade — a troca de informações entre sistemas — são ferramentas discutidas no âmbito do MES. O cruzamento de grandes bases de dados pode revelar padrões que métodos convencionais não captam. Contudo, Greyce Guasselli ressalta que, embora a tecnologia e os algoritmos sejam importantes para apoiar o sistema, o cuidado e o olhar humano permanecem insubstituíveis.
A integração de sistemas pode reduzir a necessidade de exames repetidos e fornecer às equipes um histórico mais completo do paciente, facilitando a continuidade do acompanhamento. A tecnologia, quando bem aplicada, pode otimizar processos e melhorar a eficiência do cuidado.
Desafios coletivos e soluções empresariais
Muitos dos desafios da saúde corporativa transcendem a capacidade de uma única empresa. A integração do cuidado, a incorporação de tecnologias, o uso responsável de dados e a sustentabilidade mobilizam operadoras, prestadores de serviços, especialistas, instituições de pesquisa, empresas e o poder público. Os grupos de trabalho do MES abordam quatro frentes principais: promoção e prevenção da saúde, modelos sustentáveis de saúde suplementar, dados e inteligência em saúde, e a cadeia de valor da indústria da saúde.
O movimento também promove encontros, produz estudos e recomendações. Entre os temas em debate estão mecanismos para compartilhar custos de tratamentos de alto custo e medidas para lidar com a judicialização na saúde suplementar, buscando maior previsibilidade de despesas sem comprometer o acesso do trabalhador às terapias. A Atenção Primária no ambiente corporativo também é um ponto de discussão.
As empresas, com seu contato direto com milhões de trabalhadores, têm a oportunidade de testar novas formas de cuidado, monitorar resultados e compartilhar aprendizados. Emmanuel Lacerda observa que os problemas enfrentados pelas empresas muitas vezes espelham os do sistema de saúde em geral. O diálogo com diversos atores do setor permite confrontar experiências com evidências técnicas e avaliar a aplicabilidade de soluções testadas em outros contextos.
Formação de lideranças e foco em resultados
A Academia da Saúde, mantida pelo MES, visa preparar lideranças para tomar decisões estratégicas sobre onde concentrar recursos. Profissionais de diferentes empresas têm acesso a evidências, tendências e experiências de outros setores, além de conhecerem soluções para problemas semelhantes. Greyce Guasselli sugere que os profissionais se questionem sobre a pertinência dos investimentos em saúde, a eficácia das ações e as formas de melhorar a experiência do trabalhador e otimizar recursos.
Emmanuel Lacerda enfatiza que a discussão sobre custos deve ir além do gasto e da utilização de serviços, focando nos resultados em saúde obtidos com o investimento. O objetivo é garantir que os recursos sejam empregados de forma a produzir os melhores desfechos para o bem-estar e a produtividade dos trabalhadores.
Matérias originais
- O cuidado com a saúde começa antes da doença · veja.abril.com.br


