Médicos denunciam assédio e discriminação política em hospitais e consultórios

Destaques
- •Profissionais de saúde relatam exposição de colegas por preferências eleitorais e sugestões de tratamento diferenciado a pacientes.
- •Casos incluem listas de 'médicos petistas', mensagens de boicote a pacientes e afastamento de profissionais por condutas discriminatórias.
- •Conselhos de Medicina e autoridades de saúde investigam denúncias de infrações éticas e assédio político na área médica.
A polarização política no Brasil após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem se estendido a ambientes de trabalho na área da saúde, com profissionais denunciando episódios de assédio, exposição e sugestões de discriminação a colegas e pacientes com base em suas convicções políticas. Um anestesiologista em Sergipe relatou ter sido incluído em uma lista de médicos 'esquerdistas' em um grupo privado de WhatsApp, o que o levou a temer por sua segurança e a buscar medida protetiva policial.
Exposição e intimidação entre colegas
O médico sergipano, que pediu anonimato, descreveu ter se sentido 'com um alvo na cabeça' ao ver seu nome em uma lista que identificava profissionais como 'Lulistas = esquerdistas = petistas', com bandeiras LGBTQIA+ ao lado de alguns nomes. Ele buscou o colega apontado como autor da lista, mas a conversa teria sido marcada por ofensas. A publicação, que teria sido apagada após ser levada a um grupo institucional, gerou constrangimento e levou o anestesiologista a formalizar denúncia à cooperativa de plantões e avaliar levar o caso ao Conselho Regional de Medicina (CRM).
A repercussão interna foi significativa, com colegas tentando minimizar a gravidade do ocorrido. O médico afirmou ter evitado discussões políticas em ambientes de trabalho, postando apenas em suas redes sociais privadas. Ele também procurou o Departamento de Atendimento a Grupos Vulneráveis (DAGV) da Polícia Civil, solicitando medida protetiva.
Boicote e discriminação a pacientes
Outros casos envolvem mensagens que sugerem boicote ou tratamento diferenciado a pacientes identificados como apoiadores do PT. Uma cardiologista na Bahia compartilhou em seu Instagram uma publicação que dizia: 'Não ajude petista na fila da regulação', 'Não ajude petista em pedido de emprego' e 'Não ajude petista com remédio ou dinheiro'. Embora a médica tenha posteriormente reconhecido o compartilhamento como um 'equívoco' e lamentado a preocupação causada, afirmando não defender a privação de atendimento médico por posicionamento político, o caso gerou denúncia formal ao Conselho Regional de Medicina do Estado da Bahia (CREMEB).
Na mesma linha, um médico em São Paulo teria publicado ataques contra apoiadores de Lula, afirmando 'Não atendo petistas vagabundos'. O Einstein Hospital Israelita repudiou a manifestação discriminatória e informou que o caso está sendo apurado internamente. Em Goiânia, uma ginecologista e obstetra foi afastada e demitida do Hospital Municipal da Mulher e Maternidade Célia Câmara após mensagens em um grupo de WhatsApp sugerindo que colegas evitassem dar alta a pacientes durante o fim de semana do primeiro turno da eleição, pois 'a maioria é petista'. A médica, por sua vez, afirmou que a mensagem não se transformou em conduta inadequada e que nenhuma paciente teve a alta atrasada ou negada por preferência política.
O que dizem os órgãos e o que fazer
O Conselho Federal de Medicina (CFM) reitera que o Código de Ética Médica proíbe discriminação de qualquer natureza e que, em casos de urgência e emergência, o atendimento é obrigatório. A Lei nº 3.268/1957 prevê que os CRMs podem aplicar penalidades disciplinares que vão de advertência à cassação do exercício profissional. Em casos de negativa injustificada de assistência, discriminação ou assédio político, a orientação é reunir provas e formalizar denúncia aos CRMs, podendo também ser levado ao Ministério Público, Defensoria Pública ou Justiça comum.
O CRM-ES abriu sindicância para apurar fatos relacionados a uma médica que teria compartilhado postagem irônica sobre alteração de prescrições de medicamentos de pacientes. O CRM-ES afirmou que todas as denúncias são rigorosamente apuradas. O Cremego informou que apura todas as denúncias relacionadas à conduta ética de médicos em sigilo. A Secretaria da Saúde do Estado da Bahia informou que não foram formalizadas denúncias em sua rede de assistência.


