Mercúrio em lagos maias revela contaminação histórica e riscos à saúde

Destaques
- •Pesquisadores encontraram altas concentrações de mercúrio em lagos próximos a sítios arqueológicos maias no México.
- •A contaminação, ligada ao uso de cinábrio em rituais, persistiu por séculos e afetou ecossistemas aquáticos.
- •O estudo sugere possível exposição da população maia ao metal e adiciona um fator de estresse às hipóteses sobre o declínio da civilização.
Pesquisadores identificaram concentrações elevadas de mercúrio em sedimentos de lagos próximos a dois antigos sítios arqueológicos maias na península de Yucatán, no México. A contaminação, que persistiu por séculos, atingiu diferentes organismos aquáticos, indicando impactos nos ecossistemas da região e levantando a possibilidade de exposição da população maia ao metal tóxico.
O estudo, publicado na revista Science Advances, analisou amostras de lagos em Coba e Xcach, encontrando alguns dos maiores níveis de mercúrio já registrados em locais da era maia. Em Coba, um pico de contaminação foi identificado por volta de 250 d.C., durando cerca de 150 anos, coincidindo com o início do Período Clássico maia. Em Xcach, três momentos de maior contaminação foram registrados entre 125 d.C. e 820 d.C.
Uso de cinábrio e riscos desconhecidos
A contaminação está associada ao uso do cinábrio, um mineral vermelho intenso de grande importância religiosa e cultural para os maias. Ele era utilizado como pigmento em murais e templos, além de aparecer em cerimônias e ritos funerários. No entanto, os maias desconheciam os riscos do material, composto principalmente por mercúrio, um elemento altamente tóxico que pode contaminar o solo e corpos d'água.
Segundo Matt Waters, professor da Universidade de Auburn e autor principal do estudo, as concentrações encontradas ultrapassaram amplamente os limites estabelecidos pelas regulamentações modernas de toxicologia e poluição. A equipe também observou mudanças na presença de bactérias, algas e outros organismos nos sedimentos, indicando que o mercúrio afetou a cadeia alimentar.
Impacto na população e declínio maia
A exposição ao mercúrio pode causar danos ao sistema nervoso central, cérebro, rins, pulmões e coração. Savanna Wooten, coautora do estudo, afirmou que a contaminação dos ambientes aquáticos sugere uma possível exposição dos maias ao metal pelo consumo de água ou peixes, embora essa exposição não tenha sido diretamente identificada nos sedimentos.
A descoberta adiciona um possível fator às investigações sobre o declínio de grandes cidades maias, muitas das quais foram abandonadas no final do Período Clássico. Hipóteses como mudanças climáticas e guerras já existiam, e os pesquisadores ressaltam que não há evidências suficientes para relacionar diretamente a contaminação por mercúrio ao abandono. Contudo, o estudo acrescenta mais um fator de estresse ambiental e climático à lista de pressões que atingiram a civilização maia.
Matérias originais
- Maias podem ter sido envenenados sem saber por substância usada em rituais · olhardigital.com.br



