Melatonina: Hormônio do sono pode ser aliado contra glioblastoma

Destaques
- •Pesquisas em laboratório sugerem que a melatonina pode potencializar a quimioterapia contra o glioblastoma, um tumor cerebral agressivo.
- •A combinação visa dificultar a defesa e recuperação das células tumorais enquanto a quimioterapia as danifica.
- •Ensaios clínicos em humanos são necessários para confirmar a eficácia e segurança da melatonina como adjuvante no tratamento.
A melatonina, conhecida por regular o sono, está sendo investigada como um possível coadjuvante no tratamento contra o glioblastoma, o tumor cerebral maligno primário mais comum em adultos e um dos mais difíceis de erradicar. A esperança reside na capacidade da molécula de potencializar a ação da quimioterapia, como a temozolomida, que é o pilar do tratamento após a cirurgia e radioterapia.
O glioblastoma é particularmente desafiador devido à sua natureza infiltrativa, que se espalha como raízes de uma planta pelo tecido cerebral saudável. Mesmo após a remoção cirúrgica, células tumorais microscópicas frequentemente permanecem, levando à recidiva da doença. A temozolomida age danificando o DNA das células tumorais, mas muitas delas possuem mecanismos de reparo, como a proteína MGMT, que neutralizam o efeito do medicamento. Além disso, a diversidade celular dentro do tumor inclui células-tronco capazes de regenerar a doença.
O papel da melatonina contra o tumor
A melatonina, além de seu papel no ciclo sono-vigília, atua em processos como inflamação e defesa do organismo. Em células tumorais de glioblastoma, estudos em laboratório indicam que a melatonina pode perturbar o metabolismo energético e a regulação celular, levando à morte dessas células. Ela também pode modular a interação do tumor com o sistema imunológico. Essa ação é explicada pela fragilidade de células cancerosas que crescem rapidamente e dependem de equilíbrios delicados, sendo mais suscetíveis a desestabilizações.
A estratégia de combinar melatonina com quimioterapia busca atacar o tumor em duas frentes: a temozolomida danifica o 'manual de instruções' celular para divisão, enquanto a melatonina dificulta as defesas e a recuperação das células tumorais. Em culturas de células de glioblastoma, essa combinação demonstrou um efeito sinérgico, superando a soma das ações individuais. Estudos em camundongos também mostraram que a melatonina pode frear o crescimento tumoral e tornar células-tronco tumorais mais sensíveis à temozolomida.
Desafios e próximos passos
Apesar dos resultados promissores em laboratório, a aplicação clínica da melatonina como adjuvante no tratamento do glioblastoma enfrenta obstáculos significativos. A principal preocupação é a dosagem; experimentos frequentemente utilizam concentrações muito superiores às naturalmente produzidas pelo corpo, e não se sabe se tais níveis podem ser alcançados de forma segura dentro de um tumor cerebral humano.
Dados em humanos são escassos. Um estudo de 1996, com um pequeno grupo de pacientes, sugeriu maior sobrevida em um ano para aqueles que receberam melatonina com radioterapia, mas esse ensaio é antigo e não incluiu a temozolomida. Adicionar qualquer substância a um tratamento oncológico pode ter efeitos inesperados, e pacientes em tratamento não devem usar melatonina sem orientação médica expressa.
O próximo passo crucial são ensaios clínicos rigorosos em pacientes. Estes estudos precisam determinar a dose segura, a concentração alcançada no tumor e comparar o tratamento padrão com e sem melatonina. A avaliação da qualidade de vida, incluindo memória e estado de ânimo, será tão importante quanto a sobrevida. A falta de incentivos comerciais para uma molécula barata e sem patente representa um desafio adicional, tornando a pesquisa independente e financiada com recursos públicos essencial para desvendar o potencial da melatonina contra o glioblastoma.
Matérias originais
- Melatonina: uma aliada inesperada contra o mais agressivo dos cânceres do cérebro · super.abril.com.br



