Israel: Eleições e a persistência da questão palestina

Destaques
- •A análise sugere que a substituição de Benjamin Netanyahu em Israel pode não trazer mudanças significativas para a questão palestina, pois as estruturas de dominação e ocupação permanecem.
- •O texto aponta que governos anteriores, de diferentes espectros políticos, também participaram da manutenção da ocupação e expropriação territorial.
- •A verdadeira mudança será medida pela liberdade conquistada pelos palestinos, e não apenas pela alternância no comando israelense.
A cada eleição em Israel, surge a expectativa de que a substituição do primeiro-ministro abrirá caminho para a liberdade palestina. No entanto, a história sugere que a análise deve focar em quais estruturas de dominação serão desmontadas, e não apenas em quem ocupa o cargo de liderança. Enquanto a ocupação, os assentamentos, a limpeza étnica e a negação da autodeterminação palestina permanecerem, a alternância de poder em Israel tenderá a reorganizar o comando do Estado sionista sem superar a questão colonial.
Em junho de 2021, a substituição de Benjamin Netanyahu por Naftali Bennett foi anunciada como um "governo da mudança", mas o analista Sayid Marcos Tenório já apontava que Bennett defendia os assentamentos e combatia a soberania palestina. A oposição a Netanyahu, embora heterogênea, não se configurou como um instrumento de emancipação para o povo palestino. Esse precedente orienta a leitura da atual disputa entre Netanyahu e Gadi Eisenkot.
A natureza do Estado sionista e a continuidade da ocupação
Existem diferenças entre os candidatos em relação a instituições, recrutamento, alianças e condução militar. Contudo, a questão central ultrapassa a figura do primeiro-ministro, pois envolve a natureza do Estado sionista, os interesses que ele organiza e o aparato de segurança que delimita as alternativas políticas. Netanyahu aprofundou essa realidade, mas não a criou. Governos anteriores, tanto do Likud quanto trabalhistas e de coalizões diversas, participaram ativamente da expropriação territorial e da manutenção da ocupação.
A eventual saída de Netanyahu pode encerrar sua carreira política, mas não eliminará as condições históricas que permitiram sua ascensão. A personalização da crise política em Israel oferece aos demais responsáveis a oportunidade de apresentar a continuidade como se fosse uma renovação. Os fracassados Acordos de Oslo, assinados em 1993, alimentaram expectativas de uma solução negociada, mas a experiência palestina foi marcada pela continuidade dos assentamentos e pela fragmentação territorial.
O impacto da relação colonial e os próximos passos
Explicar o fracasso dos acordos apenas pela perda de confiança israelense na paz ignora a desigualdade intrínseca à relação colonial. Enquanto negociações ocorriam, o poder ocupante continuava a alterar as condições materiais da negociação. A Segunda Intifada, a retirada dos assentamentos de Gaza e os ciclos posteriores de violência devem ser examinados dentro dessa relação colonial. A retirada de colonos de Gaza não produziu soberania palestina; a centralidade da dissuasão e da superioridade militar consolidou uma política de administração permanente do conflito, onde a segurança israelense se sobrepõe à liberdade do povo submetido à ocupação.
Nesse quadro, a ascensão de Gadi Eisenkot exige uma avaliação pelo conteúdo de seu projeto. Recompor instituições e recuperar a legitimidade internacional de Israel não equivale a reconhecer direitos nacionais palestinos. Conter determinados ataques de colonos ou distinguir assentamentos autorizados de postos ilegais, conforme o próprio Estado considera, também não resolve a apropriação de território ocupado. É fundamental reconhecer o protagonismo dos cidadãos palestinos de Israel, cujas reivindicações contra discriminação, demolições e violência expressam demandas próprias.
A dimensão externa e a busca por protagonismo palestino
Afastar figuras como Ben-Gvir e Smotrich pode ser uma prioridade concreta, pois seus votos pertencem a sujeitos políticos com demandas próprias, não representando adesão automática aos projetos dos dirigentes sionistas. O paradoxo reside na necessidade de representantes palestinos para viabilizar uma alternativa e enfrentar a resistência à participação nas decisões. Recomendar um candidato para formar governo não significa integrar sua coalizão.
A dimensão externa adiciona outra dificuldade. Em 3 de novembro, Donald Trump anunciou o fim da assistência anual a Israel, prevista em 3,8 bilhões de dólares, ao final de 2026, embora o compromisso vigente vá até 2028. Essa declaração, tratada como anúncio político de execução incerta, revela o custo político da sustentação a Israel. Encerrar a assistência financeira, mantendo o comércio de armamentos, não significa abandonar a aliança, mas indica que qualquer governo israelense enfrentará disputas crescentes em torno do apoio estadunidense.
A transformação política da sociedade israelense merece atenção, sem tratá-la como homogênea. Existem dissidências e organizações contrárias à ocupação. No entanto, partidos que priorizam a segurança de Israel e os privilégios da população judaica acima dos direitos palestinos têm força para limitar os compromissos de qualquer coalizão de governo. A libertação palestina exige protagonismo popular, unidade política e pressão internacional capaz de impor consequências à ocupação. A saída de Netanyahu pode alterar decisões e correlações de forças, mas não absolve os demais dirigentes nem desmonta a estrutura que o sustenta. A medida da verdadeira mudança será a liberdade conquistada pelos palestinos; sem ela, a ascensão de Eisenkot poderá representar apenas outra etapa da administração colonial e da Nakba contínua.
Matérias originais
- Eleições em Israel: mudam os nomes mas não muda a colonização · operamundi.uol.com.br



