Investidores buscam proteção contra reversão do mercado de IA

Destaques
- •Investidores em Wall Street buscam instrumentos financeiros para se proteger de uma possível queda no mercado de inteligência artificial.
- •A demanda por opções de venda e contratos de proteção contra calotes aumentou, afetando empresas de chips, tecnologia e infraestrutura de IA.
- •O mercado de proteção, embora crescente, ainda é pequeno em comparação com o volume total de investimentos no setor de IA.
A inteligência artificial (IA), que impulsionou valorizações bilionárias em ações e empresas de tecnologia, começa a gerar cautela entre investidores em Wall Street. Uma parcela crescente busca proteção contra uma possível reversão do mercado, aumentando a demanda por instrumentos financeiros que limitem perdas caso as apostas em IA não se concretizem como esperado.
O movimento é observado em diversas frentes. Investidores estão recorrendo a opções de venda (put options) e contratos de proteção contra calotes (credit-default swaps - CDS) para se resguardar de eventuais quedas. Paralelamente, empresas que constroem e operam data centers buscam mecanismos para mitigar prejuízos caso a demanda por capacidade computacional diminua.
“Estamos vendo demanda realmente significativa de pessoas que querem se proteger contra perdas”, afirmou Stephen Solaka, vice-presidente sênior da Gateway Investment Advisers, ao The Wall Street Journal. A preocupação ganhou força após empresas de diferentes portes não conseguirem atender às expectativas do mercado, gerando volatilidade que atingiu fabricantes de chips, gigantes de tecnologia e operadoras de infraestrutura computacional.
Investidores compram proteção contra quedas
As put options dão ao comprador o direito de vender uma ação por um preço determinado até uma data específica, funcionando como um seguro contra desvalorização. O interesse por esse tipo de proteção aumentou, especialmente em torno da CoreWeave, empresa de infraestrutura de IA que aluga capacidade computacional.
Segundo dados da Cboe Global Markets, o volume de contratos de opções ligados à CoreWeave atingiu recorde em outubro e permaneceu elevado. Apostas populares incluem opções com vencimento em 2028 que oferecem retorno caso as ações da empresa caiam para US$ 35 (cerca de R$ 190), enquanto os papéis eram negociados em torno de US$ 55 (aproximadamente R$ 300) na última semana.
Outra frente de proteção são os credit-default swaps (CDS), contratos que funcionam como seguro contra o risco de calote em dívidas. O custo desses contratos aumentou no último mês para cinco grandes empresas de tecnologia e computação em nuvem: Amazon, Alphabet, Microsoft, Meta e Oracle, atingindo os níveis mais altos desde 2021, segundo dados da provedora Solve.
“Não houve exceções, o que sugere uma preocupação ampla do mercado com o setor, em vez de eventos de crédito específicos de empresas individuais”, afirmou Eugene Grinberg, cofundador da Solve. A mudança foi especialmente expressiva para a Oracle, cujos spreads de CDS aumentaram mais de um ponto percentual.
Empresas buscam se proteger de queda na demanda por IA
A busca por proteção não se limita a investidores de ações. Empresas que alugam chips e infraestrutura para desenvolver modelos de IA também procuram reduzir o risco de queda nos preços da capacidade computacional. A Jump Trading, especializada em negociação quantitativa, criou uma mesa dedicada ao mercado de poder computacional.
Um exemplo ilustra o funcionamento: uma empresa de infraestrutura que aluga chips da Nvidia poderia comprar uma opção de venda para se proteger contra uma queda no preço cobrado pelo aluguel desses equipamentos. Se a demanda por processamento diminuir, os valores recebidos pelo aluguel também podem cair. Com o contrato, a companhia teria o direito de vender sua capacidade computacional por um preço previamente estabelecido, reduzindo o impacto em seus resultados.
O mercado já apresenta variações. O aluguel de chips Nvidia B300 subiu cerca de 56% neste ano, chegando a US$ 7,56 por hora (aproximadamente R$ 41), segundo um índice da Silicon Data. A Jump Trading poderia, em uma operação hipotética, concordar em comprar essa capacidade caso o preço caísse para US$ 4 por hora (cerca de R$ 22).
Dave Olsen, presidente da Jump, afirmou que os participantes analisam com mais cuidado quais empresas sairão vencedoras e quais enfrentarão dificuldades, avaliando modelos econômicos e capacidade de cumprir obrigações financeiras.
Proteção pode facilitar financiamento
A Susquehanna International Group, uma das maiores empresas de negociação de Wall Street, também recebeu consultas de data centers e empresas privadas de infraestrutura de IA interessadas em proteger sua exposição aos preços de semicondutores. Uma possibilidade envolve contratos ligados a índices de preços de capacidade computacional.
Se os valores caírem por redução da demanda ou aumento da oferta, esses instrumentos podem gerar pagamentos que compensem perdas. Segundo Nick Volbi, responsável por mercados de previsão institucionais na Susquehanna, esse tipo de proteção pode ajudar empresas a negociar empréstimos com bancos, apresentando um mecanismo de seguro contra queda nos preços da capacidade computacional para obter condições mais favoráveis.
A reportagem também aponta interesse em mercados de previsão ligados a possíveis restrições à construção de data centers nos Estados Unidos. A plataforma Kalshi oferece contratos sobre quais estados podem suspender novos projetos antes de 2028, incluindo New Hampshire, Michigan e Maine. No entanto, as negociações nesse segmento ainda são pouco expressivas.
Apesar do aumento da procura por proteção, as estratégias de hedge continuam pequenas em comparação ao volume total de investimentos em IA. Para muitos, o setor ainda tem grande potencial de crescimento. “Não acho que minha casa vá pegar fogo, mas mesmo assim tenho seguro. Você não precisa ser pessimista para querer alguma proteção”, comparou Olsen.
Matérias originais
- Wall Street aposta trilhões em IA, mas começa a comprar seguro contra colapso · olhardigital.com.br



