Inmetro desenvolve método químico para identificar espécies de madeira ilegal

Destaques
- •Nova técnica do Inmetro utiliza espectrometria de massas para identificar a "assinatura química" de madeiras, auxiliando na fiscalização contra o comércio ilegal.
- •O método alcançou 95% de acerto em testes e tem potencial para ser aplicado em postos de fiscalização, como portos e aeroportos, com custo reduzido.
- •A tecnologia visa combater fraudes no transporte de madeira, identificar espécies ameaçadas e fortalecer a soberania nacional sobre o patrimônio natural brasileiro.
O Brasil, país com a maior biodiversidade do planeta, enfrenta um desafio significativo na fiscalização do comércio de madeira: a dificuldade em identificar espécies transportadas, o que abre espaço para fraudes e exploração ilegal de espécies ameaçadas. Diante desse cenário, pesquisadores do Inmetro (Instituto Nacional de Metrologia do Brasil), em colaboração com outras instituições brasileiras, desenvolveram uma nova abordagem baseada na análise química para diferenciar espécies de madeira.
A técnica, publicada em março de 2026 na revista científica ACS Omega, baseia-se no princípio de que cada espécie de árvore possui um conjunto característico de substâncias químicas, uma espécie de "assinatura química". Utilizando espectrometria de massas, uma técnica já empregada em setores como o farmacêutico e alimentício, os pesquisadores analisaram madeiras de mogno, cedro, andiroba e jatobá. O modelo desenvolvido alcançou aproximadamente 95% de acerto na validação cruzada e 100% em um teste cego com 12 amostras.
O desafio da identificação de madeira
A identificação de espécies de madeira no transporte é complexa, pois as toras ou tábuas, sem folhas, flores ou frutos, podem parecer semelhantes a olho nu. Mesmo após o processamento, características anatômicas importantes para a identificação podem se tornar difíceis de observar. Essa dificuldade técnica abre margem para fraudes, como divergências entre as espécies ou volumes declarados e a madeira efetivamente transportada, além do uso de documentação ambiental falsa. Operações recentes da Polícia Rodoviária Federal e em outros pontos da Amazônia já apreenderam grandes volumes de madeira com irregularidades, incluindo espécies ameaçadas.
Sistemas como o DOF (Documento de Origem Florestal) e o Sinaflor (Sistema Nacional de Controle da Origem dos Produtos Florestais) buscam controlar a origem e o transporte de produtos florestais, mas a verificação física do material continua sendo crucial.
A inovação do Inmetro
A nova abordagem do Inmetro utiliza a espectrometria de massas para ler a "assinatura química" da madeira. O estudo analisou 60 amostras de cerne de mogno e cedro, espécies sujeitas ao controle da Cites (Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Fauna e da Flora Silvestres Ameaçadas de Extinção), provenientes de diferentes localidades amazônicas. A pesquisa demonstrou a possibilidade de usar a técnica com preparação mínima de amostras, classificação automatizada e um minuto de análise por amostra, com um custo cerca de 20% menor que equipamentos mais amplamente utilizados.
Embora o equipamento utilizado na pesquisa não seja portátil, ele é menor e mais simples de operar do que plataformas de alta resolução. A expectativa é que a tecnologia possa ser futuramente testada em postos de fiscalização, como portos, aeroportos, bases policiais ou em laboratórios móveis, aproximando a análise do local de decisão.
Combate ao crime ambiental e soberania nacional
O comércio ilegal de madeira está interligado a outras atividades criminosas, como grilagem, garimpo e tráfico de fauna, compartilhando infraestrutura e logística na Amazônia. Combater essas redes exige do Estado a capacidade de conhecer e controlar seu território. A redução do desmatamento na Amazônia Legal, embora positiva, não elimina a necessidade de fiscalização aprimorada.
A ciência, segundo os autores, não protege a floresta sozinha, mas produz a evidência científica necessária para políticas públicas mais eficazes. O desenvolvimento de métodos e bancos de referência no Brasil para analisar materiais relacionados à biodiversidade nacional amplia a capacidade do país de produzir evidências sobre seu patrimônio natural, configurando uma dimensão de soberania científica e nacional. A pesquisa contou com apoio da Faperj e do CNPq, além da colaboração da UnB, Inpa e Museu Paraense Emílio Goeldi.
Matérias originais
- Pesquisa do Inmetro reforça combate ao comércio ilegal de madeira · poder360.com.br


