Incerteza eleitoral adia IPOs e impulsiona M&A no Brasil

Destaques
- •Falta de visibilidade sobre o cenário político e fiscal brasileiro adia a retomada de ofertas públicas iniciais (IPOs).
- •Mercado de fusões e aquisições (M&A) segue aquecido, com investidores estrangeiros liderando operações.
- •Perspectiva de IPOs para 2027 depende de estabilidade fiscal e cenário macroeconômico favorável.
A incerteza em torno das Eleições de 2026 está impactando diretamente o mercado de capitais brasileiro, especialmente a retomada das ofertas públicas iniciais de ações (IPOs). Fábio Medeiros, chefe do investment banking do Morgan Stanley no Brasil, aponta que a falta de visibilidade sobre a política econômica, combinada à volatilidade global e aos juros elevados, dificulta uma recuperação mais consistente das listagens em Bolsa. Ele afirma que um bom momento para IPOs no Brasil só ocorrerá com maior estabilidade no cenário e uma perspectiva de ajuste fiscal.
As eleições de 2026 apresentam dois cenários distintos que influenciam a precificação das empresas e, consequentemente, a viabilidade de IPOs. Uma eventual reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva poderia levar a taxas de juros mais altas, com ofertas concentradas em setores como bancos e seguradoras. Por outro lado, uma vitória de Flávio Bolsonaro, com uma agenda pró-mercado e de ajuste fiscal, poderia resultar na queda dos juros, abrindo caminho para IPOs em setores como infraestrutura, consumo e saúde. Medeiros não espera mais IPOs em 2026, projetando entre cinco a dez operações em 2027, caso o cenário macroeconômico seja favorável, com perspectiva fiscal melhor no Brasil e estabilidade nos juros internacionais.
O que diz a pesquisa
Um estudo publicado em 2019 na REAd. Revista Eletrônica de Administração (Porto Alegre) analisou o efeito da incerteza política no Brasil entre 2014 e 2016 sobre o desempenho econômico e a valoração de companhias abertas. Utilizando relatórios da Standard and Poors e dados de empresas brasileiras, a pesquisa observou que o elevado nível de incerteza política impactou a atividade econômica, resultando em queda de desempenho e destruição de valor de mercado das empresas.
A pesquisa utilizou variáveis como ROE, ROA, ROI, EVA, Ebitda para desempenho econômico e Q de Tobin, MVA e Price to Book para valoração. Os resultados, robustos à utilização do índice EPU (Economic Policy Uncertainty), confirmaram as evidências de que um ambiente de alta incerteza política afeta negativamente as finanças corporativas e a economia.
Follow-ons e M&A em alta
O ambiente político e econômico também afeta os follow-ons, que registraram nove operações no ano, abaixo de 2025. Medeiros não espera uma onda dessas operações, especialmente se não houver confiança na ordem das contas públicas. Cenários de juros futuros em alta e desvalorização cambial diminuem a perspectiva para follow-ons.
Em contrapartida, o mercado de fusões e aquisições (M&A) segue aquecido, com operações de maior porte. Segmentos como infraestrutura, energia, óleo e gás, e mineração, incluindo minerais críticos, estão entre os mais ativos. Investidores estrangeiros têm respondido por boa parte das operações, atraídos por ativos cobiçados e aceitando múltiplos elevados, enquanto investidores brasileiros permanecem retraídos.
Medeiros destaca que o estrangeiro vê o Brasil como um investimento de longo prazo, aproveitando o momento de pessimismo local gerado pela incerteza eleitoral. Ele observa que, embora os múltiplos da Bolsa ajudem, não são o único fator determinante para M&A, e que compradores estratégicos e estrangeiros lideram o mercado, com operações cross-border em alta. Empresas brasileiras, por outro lado, estão mais cautelosas em aumentar alavancagem para aquisições.
Pesquisa citada
- O EFEITO DA INCERTEZA POLÍTICA NO DESEMPENHO E VALORAÇÃO DAS COMPANHIAS ABERTAS BRASILEIRAS1
REAd. Revista Eletrônica de Administração (Porto Alegre) · 2019



