IFRS 18: Nova norma contábil muda apresentação de resultados a partir de 2027

Destaques
- •A IFRS 18 padroniza a demonstração de resultados, exigindo novas comparações entre orçamento e valores realizados.
- •Empresas precisarão adaptar seus sistemas e processos para garantir a rastreabilidade e a correta análise de despesas.
- •Testes com dados de 2026 e colaboração entre finanças, contabilidade e TI são cruciais para uma transição suave.
A partir de 1º de janeiro de 2027, a norma internacional de contabilidade IFRS 18 entrará em vigor, alterando a forma como as empresas apresentam suas demonstrações de resultado (DRE). A principal mudança reside na padronização de categorias e subtotais, com o objetivo de facilitar a análise do desempenho financeiro. No entanto, essa reorganização impõe um desafio significativo: como comparar os resultados realizados com o orçamento, se a própria apresentação do realizado se modificará?
A IFRS 18 não obriga que o orçamento interno siga a mesma estrutura da DRE publicada. As empresas podem manter suas classificações gerenciais, mas terão a responsabilidade de definir como os valores orçados serão comparados aos efetivamente gastos. Um exemplo prático ilustra a complexidade: uma despesa orçada em R$ 10 milhões na rubrica "outros" pode ter apenas R$ 1 milhão mantido nessa linha na nova DRE, com os R$ 9 milhões restantes distribuídos em categorias mais específicas. Isso poderia levar a gestão a crer que houve uma economia de 90% em "outros", quando, na verdade, o gasto total pode ter sido o previsto.
Desafios na Comparação e Análise
A controladoria precisará de um esforço adicional para localizar e consolidar os valores reclassificados, a fim de explicar as aparentes diferenças em relação ao orçamento. Se esse trabalho for feito manualmente em planilhas, consumirá tempo valioso que poderia ser dedicado à análise estratégica das despesas e à revisão das projeções futuras.
O problema se estende às linhas que recebem os valores reclassificados. Elas podem indicar gastos acima do orçamento, mesmo sem um aumento real da despesa total. Antes de solicitar explicações ou propor cortes, será necessário verificar se a diferença se deve à mudança de apresentação da norma.
Adaptação de Sistemas e Processos
Para lidar com essa situação, as empresas têm duas abordagens principais: distribuir o orçamento pelas mesmas rubricas em que as despesas realizadas foram reclassificadas, ou reunir as despesas realizadas em uma visão que corresponda à previsão original. A escolha dependerá das análises internas e do nível de detalhamento necessário.
A área de Tecnologia da Informação (TI) desempenha um papel crucial nesse processo. Embora o sistema ERP (Enterprise Resource Planning) registre as transações, a classificação final para a DRE pode ocorrer posteriormente, durante a consolidação. Uma despesa pode permanecer na mesma conta de origem no ERP, mas aparecer em uma linha diferente no relatório financeiro.
A área financeira definirá os critérios de classificação, e a TI avaliará como configurar essas regras nos sistemas e garantir o fluxo de informações entre eles. Nem toda alteração de apresentação exigirá modificações no ERP; algumas podem ser tratadas na consolidação. Essa avaliação integrada evita que cada equipe resolva sua parte isoladamente, deixando a conciliação para o fechamento.
Rastreabilidade e Validação
Um dos pontos-chave da IFRS 18 é a rastreabilidade. Sistemas que permitem a integração adequada possibilitam que auditores e usuários naveguem a partir de um subtotal na DRE reformulada até os registros transacionais de origem no ERP, um recurso conhecido como "drill-down". Isso facilita a investigação dos valores sem a necessidade de procurar múltiplas versões de planilhas de reclassificação.
Para verificar um relatório, é fundamental saber a origem de um valor e o motivo de sua apresentação em determinada linha. O registro no ERP identifica a origem, e a regra de reclassificação explica sua posição na DRE. Ambas as informações devem estar acessíveis.
Caso uma regra de classificação mude entre períodos de fechamento, a equipe deve ser capaz de identificar quando a alteração ocorreu e quais valores foram afetados. Isso evita que diferenças causadas pela classificação sejam erroneamente atribuídas à operação.
Antes de finalizar o orçamento, é recomendável realizar testes comparativos. Contabilidade, planejamento financeiro e TI podem selecionar uma rubrica relevante e verificar se conseguem explicar o previsto e o realizado, consultando os lançamentos e critérios. Essa análise deve ser replicável por outro membro da equipe.
Se o teste exigir reconstruir fórmulas ou depender de um único profissional, indicará que ainda há trabalho a ser feito. Para a liderança de TI, isso ajuda a dimensionar as alterações necessárias e a alocar tempo para configuração, integração e validação dos relatórios. Empresas que iniciam a aplicação em 2027 e têm exercício social coincidente com o ano civil precisarão reapresentar as informações de 2026. Trabalhar com esses dados agora permite verificar o tratamento dos valores e a relação da nova DRE com o planejamento.
A preparação antecipada dessa comparação minimiza o risco de cortes de recursos baseados em gastos que não ocorreram ou de contagem de economias que apenas mudaram de categoria.



