IA revoluciona moda: modelos reais temem substituição por 'gêmeos digitais'

Destaques
- •Modelos de IA permitem que marcas de moda reduzam custos em até 90% em produção de imagens, mas geram preocupação sobre a substituição de profissionais e o uso indevido de suas imagens.
- •Contratos de marcas como Diesel e Calvin Klein incluem cláusulas que permitem a alteração de rostos, criação de 'gêmeos digitais' e uso de imagens para treinar sistemas de IA, sem remuneração adicional.
- •A Lei dos Trabalhadores da Moda de Nova York, que entra em vigor em junho de 2025, proíbe a criação ou modificação de réplicas de modelos sem consentimento explícito, buscando regular o uso da tecnologia.
A inteligência artificial (IA) está transformando a indústria da moda, permitindo que marcas criem imagens de modelos realistas para suas lojas online e reduzam custos em até 90% em comparação com sessões de fotos tradicionais. No entanto, essa tecnologia representa uma ameaça à profissão de modelo, levantando preocupações sobre a substituição de profissionais e o uso indevido de suas imagens.
A Reuters analisou mais de uma dúzia de contratos confidenciais e entrevistou 15 diretores de agências, revelando que marcas como Diesel, Calvin Klein e L'Oréal propõem cláusulas que permitem a alteração de rostos, a criação de cópias digitais de modelos sem remuneração adicional e o uso de suas imagens para treinar sistemas de IA. Em alguns casos, as cláusulas são amplas e ambíguas, podendo dar às marcas liberdade para usar a tecnologia de diversas maneiras.
O impacto nos modelos e agências
A expansão da IA já resulta em queda no número de trabalhos para modelos, com estúdios fotográficos fechando e profissionais temendo a perda de renda. Adot Gak, modelo que já estampou a capa da Harper's Bazaar, alertou que em poucos anos a indústria pode ser dominada por robôs se os modelos não se manifestarem.
Agências como a Uniko Models, em Barcelona, relatam que algumas marcas pedem para modificar rostos e corpos usando IA ou criar 'gêmeos digitais' para reutilização futura. A marca italiana Diesel, por exemplo, solicitou em um contrato a autorização para alterar características faciais e corporais, além de trocar rostos entre modelos.
'Gêmeos digitais' e treinamento de IA
A criação de 'gêmeos digitais' permite que varejistas modifiquem repetidamente imagens de modelos com roupas diferentes, a uma fração do custo de novas sessões. Contratos preliminares da Calvin Klein previam o uso de imagens de modelos, mesmo que irreconhecíveis, para treinar ferramentas de IA. A L'Oréal também solicitou o direito de usar IA para modificar a aparência de produtos cosméticos e embalagens.
Enquanto a Calvin Klein afirma testar e aprender nesse ambiente em evolução, respeitando os direitos dos modelos, a L'Oréal declara usar IA apenas na pós-produção, sem alterar a imagem do profissional. A OTB, controladora da Diesel, informou que o documento analisado era para uma campanha específica e não representa os contratos habituais.
Regulamentação e o futuro da profissão
A pouca regulamentação sobre o uso de IA na moda agrava o problema. Uma exceção é a Lei dos Trabalhadores da Moda de Nova York, que, a partir de junho de 2025, proibirá a criação ou modificação de réplicas de modelos sem consentimento explícito. A Model Alliance, que apoiou a lei, defende regulamentações semelhantes em outros locais.
A Associação Britânica de Agentes de Modelos elaborou um código de conduta que exige consentimento e garante que o profissional seja dono de seu gêmeo digital. No entanto, sem regras obrigatórias no Reino Unido e na Europa, modelos ainda correm risco de exploração, especialmente os mais jovens que podem não compreender as consequências a longo prazo de ceder direitos sobre sua imagem.



