IA: Empresas repensam processos para colher frutos de investimentos

Destaques
- •Empresas investem alto em IA, mas resultados ainda não aparecem nos balanços, espelhando o atraso da produtividade com a eletricidade no século XIX.
- •A adoção bem-sucedida da IA depende mais de mudanças culturais e de processos do que da tecnologia em si, exigindo redesenho de fluxos de trabalho e tomada de decisão.
- •O futuro do trabalho com IA envolve tratar agentes digitais como funcionários, com delegação, avaliação e feedback, e a adaptação humana para focar em estratégia e propósito.
O ecossistema de tecnologia chinês, com empresas como a ByteDance (dona do TikTok) processando trilhões de tokens por dia com inteligência artificial (IA), revela um cenário de investimentos massivos em IA. No entanto, a grande questão que surge é: por que esses investimentos ainda não se refletem nos balanços da maioria das empresas?
A situação remete à famosa frase do economista Robert Solow em 1987: "você pode ver a era dos computadores em todo lugar, menos nas estatísticas de produtividade". Apesar de demonstrações impressionantes e pilotos em larga escala, o impacto financeiro da IA ainda é tímido para muitas companhias.
O motor no lugar errado: a lição da eletricidade
A história da adoção da eletricidade nas fábricas no fim do século XIX oferece um paralelo. Industriais simplesmente substituíram máquinas a vapor por motores elétricos, mantendo o layout e os processos antigos. O ganho de produtividade foi mínimo até que as fábricas foram redesenhadas, com um motor por máquina e fluxos de trabalho otimizados.
Atualmente, muitas empresas aplicam a IA da mesma forma: adicionam um "copiloto" a processos existentes sem alterar a estrutura fundamental. Essa abordagem, de "trocar o motor e manter o eixo", limita o potencial da tecnologia.
Do fluxo de tarefas ao fluxo de decisões
Processos tradicionais foram desenhados em torno de limitações humanas, como aprovações em múltiplos níveis ou lotes de trabalho. Com a IA, esses limites mudam, e a razão de ser de certos gargalos desaparece.
Na ByteDance, uma proposta comercial que levava dias passou a exigir apenas 20 minutos de revisão. O trabalho não sumiu, mas migrou do processo para a decisão e validação. Processos redesenhados para IA focam em sequências de decisões, definindo claramente onde e por que o humano deve intervir.
A combinação de fluxos de trabalho previsíveis com agentes autônomos adaptáveis é crucial. A pergunta fundamental para os negócios é: onde a máquina deve seguir um roteiro e onde pode improvisar? Isso se traduz em três perguntas práticas antes de automatizar: a etapa é por necessidade do negócio ou limitação humana? Onde e quem precisa assinar? O que acontece se o agente errar?
Ways of work: todo mundo vira gestor
A maior mudança no ambiente de trabalho será a gestão de "funcionários digitais" – agentes de IA. Profissionais precisarão aprender a contratar, treinar, avaliar e "aposentar" esses agentes, aplicando habilidades de gestão que antes eram exclusivas de cargos de liderança.
Empresas onde as regras e o conhecimento residem apenas na cabeça de pessoas experientes terão dificuldade em delegar tarefas à IA. O contexto, essencial para o aprendizado dos agentes, precisa ser explicitado e registrado, saindo da informalidade.
O que muda para nós: a era dos centauros e a adaptação
A relação entre humanos e IA é comparada à dos "centauros" – jogadores de xadrez que combinavam a inteligência humana com o poder computacional. Inicialmente, essa colaboração oferecia uma vantagem significativa.
No entanto, a evolução das máquinas de xadrez sugere que o equilíbrio não é permanente. O que permanece é a capacidade humana de adaptação, como descrito por Charles Darwin. O papel humano evolui: de calculistas a colaboradores de máquinas, e, no futuro, a definir "qual jogo vale a pena jogar".
A filósofa Flaw Bone (UFRJ) destaca que a pergunta não é para onde vamos, mas "para onde queremos ir?". Nas empresas, isso se traduz em propósito, estratégia e responsabilidade. Empresas como Dasa e Ânima ressaltam que a IA não substitui a decisão humana em áreas críticas como diagnóstico médico e ensino, pois a responsabilidade final não pode ser delegada.



