IA em Finanças: CFOs lideram experimentação, mas escala ainda é desafio

Destaques
- •Executivos financeiros estão na vanguarda da experimentação com Inteligência Artificial (IA) em suas empresas, testando modelos e buscando automatizar processos.
- •Apesar do avanço na experimentação, a IA ainda enfrenta barreiras para ser implementada em larga escala nas operações financeiras, principalmente devido a preocupações com segurança, governança e rastreabilidade.
- •O próximo passo envolve integrar as capacidades da IA aos sistemas corporativos, garantindo que os agentes autônomos operem dentro de regras de governança claras, semelhantes às aplicadas a usuários humanos.
Diretores financeiros (CFOs) estão liderando a experimentação com Inteligência Artificial (IA) nas organizações, explorando modelos de linguagem e agentes para automatizar processos que tradicionalmente dependem de planilhas e análises manuais. No entanto, a tecnologia ainda enfrenta desafios para ganhar escala nas operações financeiras, especialmente pela necessidade de garantir segurança, governança e rastreabilidade das decisões.
Jackson Borges, Head of Finance & Spend da SAP para a América Latina e Caribe (LAC), destacou durante o SAP Connect 2026 que a evolução da empresa autônoma oferece uma oportunidade de transformar departamentos financeiros. A ideia é que agentes de IA assumam atividades operacionais, liberando profissionais para focar em análises de cenários, antecipação de riscos e suporte a decisões estratégicas. A SAP já conta com mais de 50 agentes preparados para otimizar processos financeiros, focando na aplicação das capacidades existentes nos sistemas corporativos para maior autonomia.
Desafios na adoção em escala
Apesar da familiaridade crescente dos CFOs com IA, muitas empresas ainda mantêm grandes equipes para tarefas administrativas e fechamento contábil. Borges aponta que a experimentação avançou mais rápido que a transformação efetiva das estruturas, e o desafio é transferir os mecanismos de governança existentes nos sistemas empresariais para os agentes de IA. A adoção individual de modelos de linguagem não se traduz automaticamente em transformação de processos financeiros, especialmente em áreas onde erros podem ter consequências contábeis, fiscais e regulatórias.
A governança é crucial para a expansão da IA financeira. Ao contrário de ferramentas de resumo, agentes integrados aos sistemas corporativos podem impactar diretamente as finanças. Isso exige controles de acesso, autorização e auditoria equivalentes aos de usuários humanos. A proposta é estender para os agentes as regras de acesso e auditoria, permitindo que atividades sejam automatizadas até certo ponto, mas exijam aprovação humana antes da conclusão. A organização deve ser capaz de rastrear as ações e informações utilizadas em cada processo.
Otimizando o fechamento contábil e o planejamento
O fechamento contábil é um exemplo claro do potencial da automação. Borges cita organizações brasileiras com mais de 20 empresas que, apesar da meta de cinco dias úteis, levam cerca de 20 dias para concluir o processo devido à complexidade de consolidar informações e às intervenções manuais. A IA agêntica pode reduzir etapas, executar tarefas repetitivas e relacionar informações, diminuindo custos operacionais e o intervalo entre um evento e sua consolidação financeira. A rastreabilidade, no entanto, é fundamental: é preciso demonstrar como o resultado foi alcançado.
A IA também transforma atividades estratégicas, como o Financial Planning & Analysis (FP&A). Em vez de construir cenários manualmente, a IA conectada aos sistemas corporativos permitirá simulações em linguagem natural, utilizando dados atualizados e submetidos à governança. Isso não elimina a decisão do CFO, mas reduz o esforço preparatório, permitindo a avaliação de mais alternativas em menos tempo. Os CFOs ganham protagonismo, pois conseguem conectar as aplicações de IA aos resultados esperados pelo CEO e conselho.
Produtividade e o cenário brasileiro
O retorno sobre investimento (ROI) em IA vai além de ganhos financeiros diretos. Inclui a melhoria da qualidade das decisões, a liberação de tempo para atividades de maior valor e o desenvolvimento de carreiras financeiras. Borges enfatiza a necessidade de demonstrar os efeitos concretos dos investimentos, avaliando como a tecnologia modifica o trabalho e libera capacidade para novas funções.
No Brasil, a reforma tributária impulsiona a transformação financeira, exigindo detalhamento e controle. A experiência brasileira em lidar com a complexidade fiscal pode gerar aprendizados para outros mercados da América Latina. Paralelamente, Borges incentiva CFOs brasileiros a compararem suas práticas com as internacionais, buscando referências globais para adaptar às exigências locais e construir estruturas financeiras mais integradas e preparadas para a expansão regional.

