Holanda: Casal morre em eutanásia dupla após sofrimento e demência

Destaques
- •Um casal holandês, Jan e Els, optou pela eutanásia dupla em junho de 2024 devido ao sofrimento de Jan e à demência de Els.
- •O filho do casal, Bas, apoiou a decisão, mas relata o profundo impacto emocional e a solidão após a perda simultânea dos pais.
- •A Holanda registrou 9.958 eutanásias em 2024, incluindo 108 casos de eutanásia dupla, com a demência sendo um fator complexo na decisão.
Em junho de 2024, um casal holandês, Jan e Els, com mais de 70 anos, encerrou suas vidas através da eutanásia dupla em um centro de cuidados paliativos no norte da Holanda. A decisão foi motivada pelo sofrimento crônico de Jan, decorrente de anos de trabalho como transportador, e pelo diagnóstico de demência de Els. O procedimento, conhecido como eutanásia em dupla, é legal na Holanda, mas raro, com um número crescente de pessoas optando por essa via a cada ano.
A jornada final e o apoio do filho
A viagem até o asilo foi realizada por Bas, filho do casal, que descreveu o trajeto como um momento agridoce. Ele tentou, sem sucesso, persuadir os pais a adiarem a decisão, mas compreendia a necessidade de agir antes que a demência de Els a impedisse de tomar a decisão final. Durante a viagem, Jan expressou dúvidas sobre a escolha, enquanto Els parecia resoluta. Bas tranquilizou o pai, e o casal seguiu em silêncio, ouvindo música e apreciando a paisagem.
Nos momentos que antecederam a eutanásia, familiares e amigos se despediram do casal. Bas confessou ter tido um breve impulso de interromper o processo, mas decidiu não interferir, mantendo o apoio à decisão dos pais. Ele leu uma carta de oito páginas para eles, expressando seu amor e gratidão, um momento que culminou em um raro abraço de Jan, que nunca havia abraçado o filho anteriormente.
O impacto da perda e a complexidade da demência
Após a morte de Jan e Els, Bas relatou sentir uma profunda solidão e um luto avassalador, descrevendo a experiência como ter as pernas cortadas. Ele sentiu dores físicas por semanas e, embora tenha apoiado a decisão dos pais, não recomendaria a perda simultânea de ambos os genitores. A situação de Els, com demência, evidencia a complexidade da eutanásia em casos de declínio cognitivo. A legislação holandesa exige que o paciente esteja em sofrimento insuportável e seja capaz de decidir por si mesmo, o que gera ansiedade em pacientes com demência sobre o momento ideal para solicitar o procedimento.
Em 2024, 9.958 pessoas na Holanda optaram pela eutanásia, sendo 427 com demência. Foram registrados 108 casos de eutanásia em dupla. Em países onde a eutanásia é proibida, como o Brasil, pacientes com demência enfrentam outros desafios, mas não a ponderação sobre o momento exato para o fim da vida como no caso de Els.


