Aves de rapina gigantes podem ter moldado evolução humana, sugere estudo

Destaques
- •A predação por aves de rapina gigantes pode ter sido uma força seletiva crucial na evolução humana, influenciando o desenvolvimento da socialização e da linguagem.
- •Marcas de garras em fósseis de primatas, como o "menino de Taung", e relatos históricos indicam que aves de grande porte caçavam nossos ancestrais.
- •O fim da Era do Gelo e a ascensão humana coincidiram com o desaparecimento da megafauna e das aves predatórias gigantes, marcando o início da era humana.
A predação por aves de rapina gigantes pode ter sido uma das forças seletivas mais importantes na evolução humana, influenciando o desenvolvimento da socialização e da linguagem. Evidências sugerem que nossos ancestrais, desde o Australopithecus africanus há 2,8 milhões de anos, foram presas de grandes aves, como águias, cujas garras deixaram marcas em fósseis.
O primatologista Scott McGraw, da Universidade Estadual de Ohio, examinou restos de primatas modernos mortos por aves de rapina e encontrou similaridades com as lesões no fóssil do "menino de Taung", indicando que aves arrancavam os olhos de suas presas. Ele acredita que a constante ameaça vinda dos céus moldou o comportamento e a evolução dos primatas, incluindo os humanos.
Ameaça constante nos céus
Durante a Idade da Pedra, os céus eram dominados por aves gigantes, algumas vegetarianas como os Dromornithidae australianos, e outras predadoras oceânicas como o Pelagornis sandersi. No entanto, foram as aves predadoras terrestres que representaram um perigo direto para os primeiros hominíneos. A necessidade de escapar desses predadores aéreos pode ter impulsionado a evolução de características humanas.
A capacidade de ficar de pé sobre duas pernas teria ajudado na visualização de predadores. A cooperação e o altruísmo, com a formação de grupos maiores, também teriam sido cruciais para a proteção mútua. O "efeito de muitos olhos", onde um grupo maior aumenta a vigilância contra ataques surpresa, é uma adaptação provável a essa ameaça.
Origem da linguagem e socialização
O arqueólogo James Cole, da Universidade de Brighton, sugere que a pressão para evitar a morte por aves predatórias pode ter contribuído para o surgimento da linguagem. Em grupos grandes, a coordenação para alertar sobre predadores que se aproximam, especialmente quando não estão no campo de visão, exigiria formas de comunicação mais complexas do que gestos simples.
McGraw aponta que, enquanto muitos primatas usam chamados de alarme generalizados, eles respondem a chamados específicos para aves de rapina, o que pode ser um precursor da linguagem humana. A necessidade de comunicação além da linha de visão, para alertar sobre perigos aéreos, teria impulsionado a evolução da linguagem.
Lendas e o fim de uma era
Acredita-se que o encontro com aves predatórias gigantes tenha inspirado lendas em diversas culturas. Na mitologia nativa americana, os thunderbirds (pássaros do trovão) com envergadura colossal podem ter sido inspirados por aves como o teratornis. Na Nova Zelândia, a lenda maori do Te Hokioi teria se baseado na extinta águia-de-haast, uma ave de rapina gigante capaz de atacar humanos.
As aves predatórias gigantes reinaram por cerca de 50 milhões de anos, mas desapareceram junto com a megafauna no final do período Pleistoceno, há cerca de 11,7 mil anos. As causas exatas (mudanças climáticas ou caça humana) ainda são debatidas, mas a expansão humana e a alteração de ecossistemas coincidiram com a perda de grande parte da megafauna. O fim dessa era marcou o início do domínio humano no planeta.


