Finanças no Brasil: Ensino focado em grandes corporações ignora realidade de PMEs
Destaques
- •Manuais de finanças brasileiros, majoritariamente traduzidos e focados em mercados como o americano, ensinam conceitos de IPOs e fusões bilionárias, distantes da realidade da maioria das empresas do país.
- •Micro, pequenas e médias empresas (MPMEs) representam 97% dos negócios no Brasil, mas suas necessidades de gestão de capital de giro, crédito bancário e fluxo de caixa são secundarizadas no ensino tradicional.
- •A discussão sobre a necessidade de adaptar o currículo de finanças para refletir a realidade brasileira, com foco em PMEs e desafios locais, ganha força entre acadêmicos e profissionais.
A formação em finanças no Brasil tem sido criticada por priorizar modelos e conceitos voltados para grandes corporações e mercados de capitais desenvolvidos, como os Estados Unidos, ignorando as particularidades e as necessidades da vasta maioria das empresas brasileiras: as micro, pequenas e médias empresas (MPMEs).
Manuais amplamente utilizados no país abordam temas como IPOs, fusões bilionárias e avaliação de multinacionais, mas pouco se aprofundam na gestão do dia a dia de negócios que lutam para pagar folha de pagamento, negociar prazos com fornecedores e gerenciar fluxo de caixa e limites bancários.
A realidade das pequenas empresas
Dados do Sebrae indicam que, em fevereiro de 2025, microempreendedores individuais, microempresas e empresas de pequeno porte somavam 97% dos negócios no Brasil. Para essa parcela expressiva, a realização de uma oferta pública de ações (IPO) está fora de cogitação.
As prioridades dessas empresas residem na administração do capital de giro, na negociação de crédito, na gestão de custos e na sobrevivência em um cenário de juros elevados, burocracia e instabilidade econômica. O papel do diretor financeiro, em muitas dessas PMEs, transcende a estratégia financeira e se concentra na gestão da liquidez, controle de caixa e negociação com bancos e fornecedores.
Formação incompleta e barreiras de linguagem
A formação atual, embora não incorreta, é considerada incompleta por não preparar adequadamente os profissionais para lidar com registros contábeis limitados e a realidade do crédito bancário, que é mais relevante para a maioria das empresas do que o mercado de capitais.
A persistência desse modelo é explicada por vieses cognitivos, como o viés de autoridade, que leva a valorizar conhecimentos de fontes internacionais de prestígio, e a heurística da disponibilidade, que foca em exemplos mais recorrentes como bolsas e ações. A linguagem técnica, com termos como spread, default e valuation, sem a devida contextualização, pode se tornar uma barreira de entrada para o conhecimento.
Um novo olhar para as finanças brasileiras
A proposta não é rejeitar os modelos internacionais, que conectam o Brasil aos mercados globais, mas sim traduzi-los para a realidade brasileira. É necessário formar profissionais capazes de atuar tanto em grandes corporações quanto na gestão de PMEs, compreendendo as particularidades do crédito bancário e os desafios de sustentabilidade em um ambiente de incerteza e restrição de crédito.
A adaptação do ensino de finanças exige um novo olhar, que dialogue com o mundo sem ignorar o país. A questão central é se a formação continuará focada em modelos como o de Wall Street ou se formará profissionais aptos a enfrentar os desafios do Brasil real.



