Filme espanhol 'A Bola Preta' mira Oscar com drama sobre homofobia e Guerra Civil

Destaques
- •O filme espanhol 'A Bola Preta' é um forte candidato ao Oscar 2026, abordando a homofobia e a ditadura franquista.
- •Inspirado em um fragmento de Federico García Lorca, o longa retrata a exclusão social e a perseguição a homossexuais na Espanha.
- •O filme já conquistou prêmios em Cannes, Toronto e San Sebastián, com estreia no Brasil marcada para janeiro de 2027.
O filme espanhol ‘A Bola Preta’, com estreia prevista no Brasil para 14 de janeiro de 2027, surge como um dos mais fortes candidatos da Espanha ao Oscar de 2026. O longa, dirigido por Javier Calvo e Javier Ambrossi, é um drama histórico que mergulha em temas como a Guerra Civil espanhola dos anos 1930, a ditadura franquista e as práticas discriminatórias da sociedade espanhola em diferentes períodos.
O sucesso do filme já foi reconhecido internacionalmente, com os diretores vencendo o prêmio de Melhor Direção no Festival de Cannes em maio. Além disso, ‘A Bola Preta’ garantiu estatuetas de audiência nos festivais de Toronto e San Sebastián. A Netflix divulgou, pela primeira vez, os resultados de bilheteria para uma de suas produções nos Estados Unidos, impulsionado por esse reconhecimento.
O Manuscrito Incompleto de Lorca
A inspiração para ‘A Bola Preta’ veio de um fragmento de quatro páginas deixado pelo poeta e dramaturgo espanhol Federico García Lorca. O material continha uma lista de personagens e um diálogo entre dois irmãos, mas o trabalho foi interrompido pelo assassinato de Lorca no início da Guerra Civil, em 1936. Relatos indicam que Lorca planejava escrever sobre um pai que confronta seu filho por ter sido rejeitado por um clube de alta sociedade com um sinal de “bola negra”, e o jovem responderia que foi negado por ser homossexual.
No filme, a narrativa se desenrola em diferentes épocas. Em 1932, Carlos é um rapaz que tenta ingressar em um grupo exclusivo de um cassino, onde o voto de alguns membros é marcado com a “bola negra”, símbolo de suspeita de homossexualidade ou outros comportamentos considerados “desviantes”. A trama também acompanha Sebastián, um soldado de Francisco Franco que se apaixona por um prisioneiro, e Alberto, um historiador que investiga a história de seu próprio avô.
Retrato da Opressão e Memória Histórica
A trama de ‘A Bola Preta’ distribui sua narrativa entre 1932 (Segunda República), 1937 e 2017, buscando retratar a trajetória de opressão vivida pela comunidade homossexual na Espanha. A Guerra Civil, iniciada em 1936, culminou na ditadura de Francisco Franco, que perdurou até 1975 e institucionalizou a perseguição a opositores políticos e dissidentes sexuais.
O período de transição para a democracia, no final da década de 1970, foi marcado por um “pacto do silêncio”, onde a reconciliação institucional priorizou-se sobre a investigação penal dos crimes do regime. A busca de Alberto, o historiador no filme, por documentos e sepulturas esquecidas, ecoa um processo de revisão da memória e abertura de arquivos que também ocorreu no Brasil durante sua redemocratização.
Práticas Discriminatórias e Inspirações Reais
A prática da “bola negra” era, de fato, um mecanismo verídico de votação anônima. Inspirado em rituais maçônicos e popularizado em clubes masculinos europeus no século XIX, o sistema era aplicado oficialmente em processos seletivos até 1989. Candidatos que recebiam duas, ou às vezes apenas uma, bola negra eram vetados, tornando o símbolo uma ferramenta de exclusão social e punição a quem fugisse dos padrões de gênero e comportamento da época.
A sequência inicial do filme, que retrata o bombardeio de um vilarejo rural, reproduz um fato documentado da Guerra Civil espanhola: em 31 de agosto de 1936, aviões italianos aliados às forças franquistas bombardearam por engano Artà, em Maiorca, matando onze civis de sua própria base de apoio. O prisioneiro de guerra por quem o soldado Sebastián se apaixona é inspirado em Rafael Rodríguez Rapún, secretário e, segundo relatos, amante de Federico García Lorca, que se alistou no exército republicano e faleceu em 1937.
O filme foi exibido no Festival do Rio no início de outubro, com a participação em sua gala de abertura e outras três sessões. A produção utilizou a vila real esvaziada de Castil de Carrias, em Burgos, para as filmagens, uma locação cuja igreja histórica abriga sepulturas violadas ao longo das décadas, adicionando uma camada de autenticidade histórica à obra.



