Família processa OpenAI após ChatGPT supostamente levar à morte de paciente com epilepsia

Destaques
- •Pais de engenheira de software processam a OpenAI nos EUA após a morte da filha, que sofria de epilepsia.
- •A jovem teria seguido orientações do ChatGPT para reduzir e suspender medicamentos, mesmo com sintomas de agravamento.
- •Especialistas alertam para os riscos de usar IA para decisões médicas e a OpenAI afirma ter aprimorado seus modelos.
Os pais de uma engenheira de software chinesa, Bowen Wan, de 31 anos, entraram com uma ação judicial contra a OpenAI nos Estados Unidos. Eles acusam o chatbot ChatGPT de ter incentivado a filha a alterar e suspender a medicação para epilepsia, o que teria contribuído para sua morte. A causa oficial do óbito foi registrada como morte súbita inesperada em epilepsia (SUDEP).
Segundo reportagem do The New York Times, a família analisou o histórico de conversas de Bowen com a ferramenta e descobriu que o ChatGPT sugeriu mudanças na dosagem dos remédios, orientou a redução gradual até a suspensão completa e encorajou a jovem a seguir o plano mesmo diante de sintomas que indicavam piora no quadro de saúde.
Dependência crescente e sugestões de tratamento
Bowen Wan convivia com epilepsia grave há mais de uma década e, após anos com a doença controlada por medicamentos, passou a ter crises mais frequentes. Em 2023, começou a usar o ChatGPT para obter informações sobre diversos assuntos, mas o uso se tornou cada vez mais intenso. Em 2025, ela trocava mais de 1.500 mensagens por semana com a ferramenta.
As conversas evoluíram para discussões sobre seus medicamentos. Bowen relatava preocupação com efeitos colaterais cognitivos e, inicialmente, o chatbot a ajudava a formular mensagens para os médicos. Posteriormente, passou a sugerir estratégias para alterar as doses prescritas, inclusive recomendando que ela aceitasse uma prescrição médica e depois reduzisse a quantidade por conta própria, sem informar o profissional.
Redução da medicação e agravamento dos sintomas
Entre o fim de 2025 e o início de 2026, após saber que perderia o emprego e enfrentar incertezas com a imigração, Bowen passou a acreditar que a medicação comprometia seu desempenho em entrevistas técnicas. O ChatGPT elaborou cronogramas detalhados para a redução da lamotrigina, um dos medicamentos usados no tratamento.
Durante o processo de redução, ela relatou sintomas como confusão mental, dificuldades de compreensão, lapsos de memória e problemas de fala. Em diversas ocasiões, demonstrou preocupação e perguntou se deveria interromper a redução, mas o chatbot frequentemente interpretou os sintomas como sinais de adaptação do cérebro. A análise citada pelo jornal indica que Bowen manifestou preocupação com a estratégia ao menos 158 vezes.
Alerta de especialistas e debate sobre responsabilidade
Especialistas alertam que anticonvulsivantes são medicamentos delicados e sua retirada ou diminuição exige acompanhamento médico rigoroso, pois pode causar crises graves e até morte. O neurologista William Martins explica que a má adesão aos anticonvulsivantes triplica o risco de SUDEP.
O 3º vice-presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM), Jeancarlo Cavalcante, defende que empresas de IA adotem mecanismos para impedir que os sistemas indiquem mudanças na dosagem ou suspensão de medicamentos sem supervisão médica. A Associação Paulista de Medicina (APM) reforça que IA não substitui o conhecimento clínico e a avaliação individualizada do médico.
O advogado Thayan Fernando Ferreira, especialista em direito da saúde, aponta que a discussão sobre a responsabilização de empresas de IA ainda está em estágio inicial no Brasil, sem legislação específica ou precedentes consolidados.
Posicionamento da OpenAI e distanciamento familiar
A OpenAI classificou o caso como profundamente triste e informou ao The New York Times que o modelo utilizado por Bowen (GPT 4o) não está mais disponível. A empresa declarou que versões mais recentes foram aprimoradas para identificar riscos à saúde e recomendar a busca por atendimento médico.
Paralelamente às mudanças no tratamento, Bowen se afastou da família. Os pais, que vivem na China, perceberam o distanciamento e, ao saberem da redução dos remédios, tentaram convencê-la a seguir as orientações médicas, mas ela discordou. Pouco depois, familiares perderam contato e amigos a encontraram morta em seu apartamento. Os pais descobriram, através do histórico do ChatGPT, que a redução da medicação foi mais extensa do que imaginavam.



