Extrema-direita usa gênero como pauta central para atrair eleitoras e controlar a política

Destaques
- •Discurso antifeminista da extrema-direita ganha espaço no debate político brasileiro, focando em temas como família e reprodução.
- •Mulheres são atraídas por meio de figuras antifeministas, mas sua participação política é seletiva e restrita a modelos de feminilidade tradicionais.
- •A disputa eleitoral se concentra em quais mulheres podem participar, como devem fazê-lo e para quais projetos políticos seus votos devem ser direcionados.
O direito das mulheres à participação política, conquistado há quase um século, volta a ser questionado no Brasil. Discursos que antes circulavam em nichos da extrema-direita na internet agora ganham espaço no debate político, tanto no Brasil quanto entre conservadores nos Estados Unidos. Segundo a socióloga Camila Galetti, a extrema-direita aceita a participação feminina de forma seletiva, priorizando mulheres que defendem a família tradicional e afastando candidaturas progressistas.
A pesquisadora explica que o gênero não é uma pauta secundária, mas sim central para a extrema-direita, organizando disputas fundamentais sobre família, sexualidade, reprodução e autoridade. Ao combater a chamada "ideologia de gênero", eles se referem a temas como educação sexual, direitos LGBT+ e aborto, utilizando-os para mobilizar eleitores conservadores e limitar a autonomia feminina. Essa estratégia constrói um inimigo, associando feminismo, pautas LGBT+ e direitos humanos à desorganização da família e à perda da autoridade masculina.
A "boa mulher" na política da extrema-direita
A extrema-direita autoriza a participação de mulheres na política institucional de maneira seletiva. Em 2018, houve um aumento na representação feminina com a eleição de parlamentares ligadas ao PSL (atual PL), muitas com discursos antifeministas. Essas mulheres podem ser politicamente ativas e defender a família tradicional, mas sua participação é limitada a um modelo de feminilidade considerado legítimo: ser feminina e heterossexual, mesmo que não o seja na vida privada.
Essas parlamentares podem falar sobre violência contra a mulher, mas sem uma perspectiva feminista, por vezes culpabilizando as vítimas. Elas servem como prova de que a extrema-direita não é contra a participação feminina. No entanto, quando rompem com essas narrativas, como no caso de Joice Hasselmann, perdem espaço político. A "boa mulher" é aquela que se conforma às expectativas patriarcais.
Disputa pelo voto feminino e controle da participação
A extrema-direita reconhece a importância do voto feminino, que representa mais de 52% do eleitorado brasileiro. A disputa eleitoral se concentra em quais mulheres podem participar, como devem fazê-lo e para quais projetos políticos seus votos devem ser direcionados. O antifeminismo se torna palatável, legitimando a participação feminina apenas se defenderem o modelo tradicional de feminilidade.
Planos de governo frequentemente questionam a violência contra a mulher, mas oferecem respostas deslocadas sobre feminicídio. A mulher é convocada a ser esposa, cristã e empreendedora, com medo da violência, sendo instrumentalizada como eleitorado estratégico sem reconhecimento de sua autonomia. A política institucional se torna um "falo" para essas mulheres, que ganham visibilidade e são escutadas.
Aborto e autonomia feminina sob ataque
A discussão sobre aborto é frequentemente reduzida a um debate moral, quando deveria ser tratada como questão de saúde pública. A autonomia do corpo feminino e a mortalidade materna são pontos cruciais, mas muitas vezes ignorados. Mulheres que se posicionam abertamente sobre o tema, como Marina Silva, sofrem ataques e silenciamentos.
A experiência de Dilma Rousseff ilustra como a condição de mulher e a atuação política são associadas a julgamentos morais, incluindo acusações relacionadas ao aborto e questionamentos sobre sua sexualidade por não performar a feminilidade esperada. O aborto é usado para deslegitimar mulheres no poder. A negação do direito de decidir sobre a reprodução interfere nas possibilidades de organização da vida, sexualidade, trabalho e participação social das mulheres.
A memificação de mulheres na política, como ocorreu com Dilma, reduz sua atuação a caricaturas, deslegitimando suas propostas e lutas. A objetificação e a economia de atenção distorcem o debate político. Mulheres, que tendem a ter posições mais progressistas, enfrentam violência política de gênero que torna o espaço político hostil, favorecendo a ascensão de mulheres de extrema-direita que disseminam um modelo de feminilidade que vai contra o progressismo e a luta por igualdade.
Matérias originais
- Projeto de poder da extrema direita precisa da ideologia de gênero · intercept.com.br



