Exercício físico deve ser prescrito como tratamento para saúde cerebral

Destaques
- •Artigo na Brain Health defende que atividade física seja tratada como intervenção estruturada, não apenas recomendação de estilo de vida.
- •Pesquisadores apontam benefícios para cognição, humor e prevenção de distúrbios cerebrais, com base no eixo músculo-cérebro.
- •Recomendações de exercícios devem ser individualizadas, considerando segurança, comorbidades e acesso, e integradas aos sistemas de saúde.
A prática de exercícios físicos deve ser encarada como uma intervenção estruturada para a saúde cerebral, e não apenas como uma recomendação de estilo de vida. A sugestão vem de um artigo publicado na revista científica Brain Health, que reúne evidências sobre os benefícios do movimento para a cognição, humor, sono, motivação e resiliência. Os autores, pesquisadores das Universidades de Ottawa e Toronto, no Canadá, defendem que a atividade física seja um componente do cuidado com a saúde cerebral, ao lado de medicamentos e psicoterapia.
O médico Gregory Saraiva Medeiros, do Hospital Moinhos de Vento, concorda com a reflexão, afirmando que o artigo compila conhecimentos científicos já disponíveis. Ele ressalta que a orientação médica sobre exercícios, muitas vezes genérica, deve evoluir para um planejamento de tratamento com orientações claras e acompanhamento adequado.
Benefícios para o cérebro e o eixo músculo-cérebro
A função cerebral depende de sistemas como integridade vascular, regulação metabólica e neuroplasticidade. O exercício físico atua nesses sistemas, melhorando funções cardiorrespiratória e cerebrovascular, e influenciando a plasticidade cerebral e a aprendizagem. Uma das vias de ação é o chamado eixo músculo-cérebro, onde músculos em contração secretam miocinas e outras moléculas, como o BDNF (fator neurotrófico derivado do cérebro), que estimula a neuroplasticidade e a memória.
Estudos mostram que o exercício aeróbico pode aumentar o volume do hipocampo anterior, área crucial para a memória. Além disso, há evidências robustas de que intervenções com atividade física podem reduzir sintomas de depressão e ansiedade, sofrimento psicológico e desfechos relacionados ao suicídio. Uma metanálise de 2024 indicou que caminhada, corrida, ioga e treinamento de força diminuíram sintomas depressivos, com efeitos maiores em intensidades mais elevadas.
Para o envelhecimento cognitivo, a atividade física está associada a menor risco de comprometimento cognitivo, demência e Alzheimer. A Organização Mundial da Saúde (OMS) inclui o exercício em suas recomendações para a redução do risco de demência. Mesmo doses menores de exercício, como cerca de 75 minutos por semana de atividade moderada, podem trazer benefícios.
Prescrição personalizada e acesso
A prescrição de exercícios deve ser detalhada e específica, incluindo tipo de atividade, frequência, intensidade, duração, considerações de segurança, barreiras e plano de acompanhamento. A OMS recomenda de 150 a 300 minutos de atividade aeróbica moderada ou de 75 a 150 minutos de atividade vigorosa por semana, com fortalecimento muscular em pelo menos dois dias.
As recomendações devem ser individualizadas, considerando o condicionamento físico, sintomas, comorbidades, preferência e acesso do paciente. Pacientes frágeis podem precisar de avaliação médica prévia. Uma abordagem gradual, com monitoramento de sintomas, é recomendada.
A personalização é crucial para pessoas com comorbidades, como depressão, que pode reduzir energia e motivação. Fatores como ansiedade, psicose, dor crônica, pobreza e ambientes inseguros também limitam a participação. A prescrição eficaz requer colaboração entre profissional de saúde e paciente, com metas estabelecidas, início gradual e acompanhamento regular.
Para pacientes com dificuldades, o ponto de partida pode ser uma caminhada leve de 5 minutos ou exercícios na cadeira. Pequenos sucessos podem construir autoeficácia e hábito. Idealmente, o exercício físico deve ser incorporado aos sistemas de saúde, com documentação do comportamento sedentário, encaminhamento para programas comunitários e monitoramento de alterações no humor e cognição.
Medidas de equidade, como financiamento governamental para programas comunitários e apoio ao transporte, são importantes para evitar a ampliação de desigualdades. A atividade física não substitui medicamentos, mas é uma aliada na prevenção e cuidado de diversas doenças.
O que diz a pesquisa
Um artigo publicado na revista científica Brain Health, com revisão por pares, reúne evidências sobre os benefícios da atividade física para a saúde cerebral. Os autores, Carl Zhou e Nicholas Fabiano (Universidade de Ottawa) e Stanley Wong (Universidade de Toronto), ambos no Canadá, argumentam que o exercício físico atua em sistemas vasculares, metabólicos, inflamatórios e de neuroplasticidade, parcialmente através do eixo músculo-cérebro. O estudo aponta que evidências robustas apoiam benefícios para depressão, ansiedade e cognição, inclusive em esquizofrenia, embora parte das evidências seja observacional. Os pesquisadores defendem que o exercício seja prescrito com a mesma especificidade de outros tratamentos, individualizado para segurança e comorbidades, e apoiado por sistemas de saúde que abordem barreiras de acesso.
Pesquisa citada
- Exercise is critical for brain health
Brain Health · 2026


