Argentina: Livro sobre feminicídio vira alvo de censura e ameaças

Destaques
- •O livro 'Cometerra', da autora argentina Dolores Reyes, que aborda feminicídio, tornou-se alvo de censura após alegações de conteúdo sexual inadequado para adolescentes.
- •A autora passou a receber centenas de mensagens de ódio e ameaças diárias, enquanto a vice-presidente Victoria Villarruel pediu a retirada do livro de escolas.
- •Em resposta, escritores organizaram uma leitura pública contra a censura, impulsionando o livro para a lista de mais vendidos na Argentina.
O romance argentino Cometerra, de Dolores Reyes, que narra a história de uma jovem com o dom de ouvir os mortos ao comer a terra de seus túmulos, tornou-se centro de um debate sobre censura na Argentina. A obra, dedicada à memória de vítimas de feminicídio, foi considerada inadequada para adolescentes por conter conteúdo sexual, segundo alegações da Fundação Natalio Morelli e da vice-presidente Victoria Villarruel.
A trama e a polêmica
Em Cometerra, a protagonista, apelidada de Cometerra, tem a capacidade de ouvir os últimos momentos de pessoas desaparecidas ao ingerir a terra de seus locais de sepultamento. Essa habilidade a coloca em contato com a violência e o sofrimento de mulheres e de suas famílias, que buscam respostas e um desfecho para suas perdas. A narrativa fragmentária e a ausência de explicações claras para as mortes violentas evocam a memória de obras como 2666, de Roberto Bolaño, e a própria experiência da autora, que leciona em uma região marcada pela violência.
Após a distribuição do livro em colégios de Buenos Aires, a polêmica se instalou. A alegação de conteúdo sexual inadequado levou à denúncia e ao pedido de retirada de Cometerra e outras obras, como As Aventuras de China Iron, de Gabriela Cabezón Cámara, e As Primas, de Aurora Venturini, das escolas.
Ataques à autora e resistência
Dolores Reyes passou a receber um volume massivo de mensagens de ódio, com insultos, ameaças de morte e de retirada da guarda de seus filhos, além de acusações de pedofilia. Seu endereço e local de trabalho também foram divulgados.
Como resposta à tentativa de censura, a comunidade literária argentina se mobilizou. Mais de 120 escritores se reuniram no Teatro Picadero, um local com forte simbolismo de resistência à ditadura militar argentina, para realizar uma leitura pública do livro. A iniciativa visava combater a censura e defender a liberdade de expressão.
Impacto e desfecho
A campanha contra a censura e a leitura coletiva tiveram um efeito contrário ao pretendido pelos opositores. O livro Cometerra alcançou a lista de mais vendidos na Argentina, evidenciando a força da mobilização cultural e a rejeição a tentativas de silenciamento.
A situação gerou um debate sobre a liberdade de expressão na literatura e a interpretação de conteúdos voltados para o público jovem. A ironia de um livro que trata de feminicídio ser perseguido por suposto conteúdo sexual ressalta a complexidade da violência e a dificuldade em apreender e traduzir seu sentido, mesmo através da arte.
Matérias originais
- ‘Cometerra’, o romance argentino perseguido pelo governo Milei · operamundi.uol.com.br


