Estudo questiona obrigatoriedade de jejum para exames de sangue

Destaques
- •Pesquisa com 9,8 milhões de resultados sugere que jejum prolongado pode não ser necessário para diversos exames de rotina.
- •Glicose, triglicérides, GGT e lipase mostraram variações significativas após menos de 8 horas sem comer.
- •A flexibilização do jejum deve ser avaliada caso a caso, considerando o exame específico e as orientações médicas.
Um estudo publicado na revista científica JAMA Internal Medicine, analisando quase 10 milhões de resultados de exames de sangue de adultos na Coreia do Sul, questiona a necessidade de jejum prolongado para diversas análises de rotina. A pesquisa, realizada entre 2021 e 2023, comparou resultados de pacientes que jejuaram por menos de oito horas, entre oito e doze horas, e mais de doze horas, buscando entender a variação em diferentes parâmetros.
Os cientistas observaram que muitos componentes do hemograma e exames de função renal apresentaram pouca variação relevante, mesmo com jejuns mais curtos. No entanto, dez parâmetros mostraram diferenças significativas quando a coleta ocorreu com menos de oito horas de jejum. Entre eles, a glicose aumentou 10,8%, os triglicérides subiram 20,1%, a GGT (gama-glutamiltransferase) apresentou elevação de 14,8% e a lipase disparou 36,4%. Curiosamente, ao comparar quem jejuou entre oito e doze horas com quem passou mais de doze horas sem comer, nenhum parâmetro ultrapassou os limites considerados para variações laboratoriais, levantando dúvidas sobre a confiabilidade de jejuns excessivamente longos.
Quando o jejum ainda é essencial
O jejum em exames de sangue visa reduzir a interferência da alimentação recente nos resultados. Após uma refeição, certas substâncias no sangue podem se alterar, e partículas de gordura podem turvar a amostra, dificultando algumas análises. A Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial geralmente orienta um jejum de oito horas para coletas de rotina, mas sugere que ele pode ser reduzido para quatro horas na maioria dos exames, e recomenda não ultrapassar dezesseis horas.
Para testes comuns como hemograma, creatinina, ureia, a maioria das enzimas hepáticas e bilirrubinas, o jejum pode frequentemente ser dispensado. Contudo, a necessidade de restrição alimentar pode variar se outros exames, que exigem preparo específico, forem solicitados na mesma coleta. A inteligência artificial tem sido utilizada para otimizar esse processo, unificando orientações de preparo para conjuntos de exames, como no caso de um algoritmo que sintetiza instruções para o paciente receber um guia único e mais claro.
Flexibilização e exemplos práticos
A endocrinologista Cristina Khawali, gerente médica de análises clínicas da Dasa, explica que, se um paciente comeu antes do exame, deve informar à equipe o que e quando consumiu. Dependendo dos testes, a coleta pode prosseguir. A água geralmente é liberada e não quebra o jejum, mas café, chá e sucos podem interferir nos resultados. Dúvidas sobre medicamentos devem ser esclarecidas previamente com o médico.
Exames como a glicemia de jejum, para investigar diabetes, exigem pelo menos oito horas sem ingestão calórica, pois seus valores de referência pressupõem essa condição. Em contraste, a hemoglobina glicada, também usada no acompanhamento do diabetes, não requer jejum, pois reflete a exposição à glicose nos últimos dois a três meses.
A avaliação de colesterol e triglicérides também exemplifica a mudança de recomendação. Desde 2016, consensos brasileiros e europeus permitem a realização rotineira do perfil lipídico sem jejum, com restrição alimentar reservada a situações específicas. Quando os triglicérides estão muito elevados (acima de 440 mg/dL) em amostra sem jejum, a orientação é repetir a dosagem após doze horas de restrição, sob avaliação médica. O tempo de jejum deve ser registrado no laudo.
A médica ressalta que a flexibilização para um exame não se estende automaticamente aos demais. Uma explicação clara sobre o porquê, o tempo e para qual exame o jejum é necessário ajuda o paciente a seguir a orientação. O cuidado centrado no paciente envolve ajudar a cumprir o preparo quando necessário e dispensá-lo quando possível, preservando a qualidade do exame e considerando as preferências individuais.
Matérias originais
- Jejum antes do exame de sangue: quando ele ainda faz diferença · veja.abril.com.br



