Estudo em camundongos sugere base neurobiológica para desejos na gravidez

Destaques
- •Novo estudo em camundongos aponta alterações em neurônios de serotonina como possível causa para desejos alimentares intensos durante a gestação.
- •Pesquisa identificou que fêmeas grávidas apresentaram maior motivação para buscar alimentos ricos em gordura e açúcar, mesmo sem fome.
- •Especialistas ressaltam que os resultados em animais ainda não explicam completamente o fenômeno em humanos, que envolve fatores psicológicos e culturais.
Um novo estudo publicado na revista científica Nature Neuroscience trouxe uma nova pista para entender os famosos desejos alimentares durante a gravidez, conhecidos como food craving. Pesquisadores observaram em camundongos grávidas alterações em neurônios produtores de serotonina que aumentaram a motivação para buscar alimentos ricos em gordura, açúcar e proteínas. Embora os resultados apontem para um possível componente neurobiológico, os especialistas alertam que ainda não é possível afirmar que o mesmo mecanismo explique o fenômeno em mulheres grávidas, que é multifatorial.
O que são os desejos alimentares na gravidez?
Os desejos da gravidez são vontades intensas e específicas por determinados alimentos, que podem surgir mesmo quando a gestante não está com fome. Diferente da fome, que é uma necessidade básica por energia, o craving é direcionado a um alimento particular, como um chocolate específico, um sanduíche de um restaurante ou um tipo de sorvete. Especialistas como Eduardo Cordioli, diretor técnico de obstetrícia do Hospital e Maternidade Santa Joana, e Iara Linhares, orientadora da Pós-Graduação em Obstetrícia e Ginecologia da Faculdade de Medicina da USP, explicam que o fenômeno envolve uma combinação complexa de fatores.
Esses fatores incluem alterações hormonais e metabólicas, necessidades energéticas, mudanças na percepção de sabores, aspectos psicológicos e culturais, e modificações nos circuitos cerebrais ligados à motivação, ao apetite e à recompensa. A gestação provoca profundas transformações endocrinológicas e metabólicas, e o cérebro também participa dessa adaptação, com possíveis modificações em centros gustatórios, sensitivos e de recompensa.
O que o novo estudo descobriu em camundongos?
Pesquisadores do Pennington Biomedical Research Center, da Universidade Estadual da Louisiana (LSU), estudaram o comportamento alimentar de camundongos durante a gestação. Eles observaram que os animais grávidos apresentavam maior motivação para buscar alimentos altamente palatáveis, mesmo quando alimentados. As fêmeas grávidas faziam refeições maiores e mais frequentes e procuravam mais vezes o local onde a comida estava, indicando maior motivação pela recompensa alimentar.
A investigação levou a equipe a neurônios produtores de serotonina no núcleo dorsal da rafe. Durante a gestação, esses neurônios se tornaram menos ativos devido ao aumento da atividade de um canal de potássio chamado SK3. Essa redução na atividade dos neurônios de serotonina resultou em um aumento do comportamento semelhante ao desejo por alimentos palatáveis. Os cientistas também identificaram uma conexão desses neurônios com a área tegmental ventral, região cerebral envolvida em recompensa e motivação.
Limitações e o que esperar para humanos
Apesar dos resultados promissores, os especialistas ressaltam que o experimento em camundongos não demonstra a causa dos desejos alimentares em mulheres grávidas. Os animais não podem relatar uma vontade específica, e a motivação é avaliada por comportamentos observáveis. Fatores como cultura, memória, emoções e contexto social, que são cruciais na alimentação humana, não podem ser totalmente reproduzidos em experimentos com animais.
Eduardo Cordioli considera o trabalho uma demonstração de um possível mecanismo biológico, mas não a descoberta definitiva da causa dos desejos das gestantes. Iara Linhares concorda que ainda não há elementos para extrapolar os resultados para os complexos mecanismos do cérebro humano. Os desejos na gravidez geralmente aparecem no segundo trimestre e tendem a diminuir no terceiro, mas o estudo em animais não permite converter os tempos de gestação de forma direta.
Quando os desejos são motivo de preocupação?
Na maioria das vezes, os desejos não são motivo de preocupação, especialmente quando inseridos em uma dieta equilibrada. No entanto, o problema pode surgir quando a vontade frequente se transforma em consumo habitual de alimentos muito calóricos, interferindo na dieta e na saúde da gestante. Sinais de alerta incluem o desejo substituindo refeições, ganho ou perda excessiva de peso, episódios de compulsão ou incapacidade de manter uma alimentação nutricionalmente adequada.
A ingestão excessiva de alimentos altamente calóricos pode levar a ganho de peso inadequado, diabetes gestacional, aumento da pressão arterial e dificuldades no parto. A ideia de que a grávida precisa "comer por dois" não deve justificar o aumento indiscriminado da ingestão calórica. Desejos persistentes de ingerir substâncias não alimentares, como terra ou giz, caracterizam a síndrome da pica e merecem avaliação médica, podendo estar associados a deficiências nutricionais.


