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Estudo brasileiro Bioaz busca biomarcadores precoces para Alzheimer

26 de outubro de 2026
Estudo brasileiro Bioaz busca biomarcadores precoces para Alzheimer

Destaques

  • •Estudo Bioaz, da Unifesp, acompanhará 500 brasileiros com queixas de memória por cinco anos para identificar biomarcadores de Alzheimer.
  • •A pesquisa visa antecipar o diagnóstico da doença, que pode começar a se desenvolver 15 a 20 anos antes dos primeiros sintomas.
  • •O projeto enfrenta desafios de diversidade na amostra e busca financiamento para se expandir e se tornar a maior coorte da América Latina.

O Estudo Brasileiro em Doença de Alzheimer (Bioaz), iniciado pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) com apoio da FAPESP, busca identificar biomarcadores que permitam antecipar o diagnóstico da doença de Alzheimer. A pesquisa, que acompanhará 500 brasileiros com queixas de memória, mas sem demência, a partir dos 55 anos por cinco anos, parte da premissa de que alterações cerebrais associadas à doença podem se acumular por até 20 anos antes do surgimento dos sintomas.

O neurologista Gustavo Melo de Andrade Lima, presidente do Núcleo de Ensino e Pesquisa em Envelhecimento Cerebral (Nudec) da Unifesp, ressalta que, embora os sintomas sejam controláveis, a intervenção no curso da doença se torna tardia quando a demência já se manifestou. O objetivo do Bioaz é justamente encontrar sinais precoces, como biomarcadores no plasma, para permitir intervenções mais eficazes na fase pré-clínica da doença, quando ela já está presente patologicamente, mas ainda não se manifestou clinicamente.

O que o estudo Bioaz investiga

O Bioaz é um estudo de coorte longitudinal que visa coletar uma quantidade incomum de dados clínicos e biológicos dos participantes. A abordagem clínica inclui questionários sobre escolaridade, renda, exposição à violência e poluição, entrevistas com especialistas e avaliações neuropsicológicas, fonoaudiológicas e nutricionais. Na frente biológica, a pesquisa abrange análises de plasma, tomografia de coerência óptica (OCT), audiometria, neuroimagem e, futuramente, coleta de líquor.

A OCT, que mede a espessura da retina, geralmente reduzida no Alzheimer, foi um dos pontos de partida para a investigação do risco em indivíduos com comprometimento cognitivo leve. O escopo de coleta de dados se ampliou com a inclusão de marcadores de sangue, líquor, exames de imagem, testes cognitivos, genoma e transcriptoma.

A importância da diversidade na pesquisa

Um dos maiores desafios do Bioaz é garantir a diversidade da amostra. A maioria das grandes coortes de Alzheimer no mundo é composta por caucasianos, e o DNA brasileiro, com sua miscigenação única (influenciada por imigrações europeias e africanas distintas das dos EUA), exige um estudo específico. A meta é que a coorte seja representativa da população de São Paulo, incluindo cerca de 10% de pessoas pretas e um terço de pardos, conforme o Censo 2022.

No entanto, o recrutamento tem sido dificultado pela predominância de voluntários brancos, mulheres e de alta escolaridade. Para contornar essa barreira, a equipe planeja usar a pesquisa com engajamento comunitário (community engagement research), buscando vínculo com lideranças locais, escolas e igrejas para desenhar estratégias de recrutamento mais inclusivas, mirando bairros como o Capão Redondo.

Desafios éticos e próximos passos

A coleta de líquor, que oferece um diagnóstico biológico próximo do padrão-ouro, levanta dilemas éticos. Os participantes passam por conversas individuais para decidir se desejam ou não conhecer os resultados, que podem indicar um futuro com demência. A equipe considera oferecer suporte psicológico para auxiliar na devolutiva desses exames, que podem gerar ansiedade, mas também motivar a prevenção e o engajamento em tratamentos.

Dados preliminares animam a equipe, com cerca de 125 participantes no primeiro ano e análises exploratórias de plasma sugerindo que aproximadamente 25% da amostra apresentam marcadores compatíveis com Alzheimer, como a pTau217 plasmática. A pesquisa busca financiamentos nacionais e internacionais para ampliar o Bioaz para 2 mil voluntários e dez anos de acompanhamento, com o objetivo de se tornar a maior coorte da América Latina. A ciência corre para antecipar os sinais da doença, transformando o tempo ganho em prevenção e tratamento.

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