Estudo Bioaz busca biomarcadores de Alzheimer em brasileiros com queixas de memória

Destaques
- •O Estudo Brasileiro em Doença de Alzheimer (Bioaz) acompanhará 500 brasileiros com queixas de memória por cinco anos para identificar biomarcadores precoces da doença.
- •A pesquisa busca entender as particularidades genéticas e de exposição do brasileiro para desenvolver métodos de diagnóstico e intervenção mais eficazes.
- •O projeto enfrenta desafios de diversidade no recrutamento e de financiamento a longo prazo, mas visa se tornar a maior coorte da América Latina.
O Estudo Brasileiro em Doença de Alzheimer (Bioaz), iniciativa da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) com apoio da FAPESP, busca antecipar o diagnóstico da doença de Alzheimer, que pode começar a se manifestar no cérebro até 20 anos antes dos primeiros sintomas. O estudo pretende acompanhar por cinco anos 500 brasileiros com 55 anos ou mais que já apresentam queixas de memória, mas ainda não foram diagnosticados com demência, com o objetivo de identificar biomarcadores que prevejam o desenvolvimento da doença.
A janela de 15 a 20 anos em que alterações cerebrais associadas ao Alzheimer se acumulam antes dos sintomas é o foco da pesquisa para permitir intervenções precoces. O neurologista Gustavo Melo de Andrade Lima, presidente do Núcleo de Ensino e Pesquisa em Envelhecimento Cerebral (Nudec) da Unifesp, ressalta que, quando os sintomas se manifestam de forma clara, como o esquecimento de compromissos, já é tarde para reverter o curso da doença.
Fenotipagem profunda e diversidade brasileira
O projeto Bioaz se destaca pela sua abordagem de fenotipagem profunda, caracterizando detalhadamente os participantes. A coleta de dados inclui avaliações clínicas (questionários, entrevistas, neuropsicologia, fonoaudiologia, nutrição) e biológicas (análises de plasma, tomografia de coerência óptica - OCT, audiometria, neuroimagem, e futuramente líquor). A OCT, por exemplo, mede a espessura da retina, que pode estar reduzida em casos de Alzheimer.
Um dos diferenciais e maiores desafios do estudo é a busca por representatividade da população brasileira. Diferente de coortes internacionais focadas em caucasianos, o Bioaz visa capturar as particularidades genéticas e de exposição do Brasil. No entanto, o recrutamento tem enfrentado dificuldades em atrair participantes negros e pardos, que compõem a maioria da população brasileira, mas que se voluntariam em menor proporção. A equipe está redesenhando estratégias, incluindo o community engagement research (pesquisa com engajamento comunitário), para alcançar bairros periféricos e aumentar a diversidade da amostra.
O peso do conhecimento e os próximos passos
A pesquisa também aborda o dilema ético de informar voluntários sobre um possível diagnóstico futuro de demência. Cada participante passa por uma conversa individual para entender se deseja ou não saber os resultados de exames como a coleta de líquor, que oferece um diagnóstico biológico próximo do padrão-ouro. A equipe planeja oferecer suporte psicológico para auxiliar os participantes a lidar com essa informação.
Os resultados preliminares são animadores, com análises exploratórias de plasma sugerindo que cerca de 25% da amostra inicial apresenta marcadores compatíveis com Alzheimer, como a pTau217 plasmática. A pesquisa também investiga proteínas relacionadas à inflamação e ao metabolismo de lipídios, além de utilizar reprogramação celular para gerar neurônios e rastrear efeitos genéticos.
O neurologista Paulo Henrique Ferreira Bertolucci, da Unifesp, destaca a importância de gerar dados brasileiros, pois a genética e os fatores de risco (como pobreza, que leva ao mau controle de hipertensão, diabetes, obesidade) são diferentes dos encontrados em outros países. A idade de corte de 55 anos foi escolhida para capturar o impacto do exposoma — fatores ambientais, sociais e comportamentais — na população brasileira. O projeto busca financiamento para expandir a coorte para 2 mil voluntários e dez anos de acompanhamento, visando ser a maior da América Latina.
É importante notar que os biomarcadores de Alzheimer não são um diagnóstico definitivo de demência, mas indicam um risco aumentado. A demência é diagnosticada clinicamente pela perda funcional e declínio cognitivo que afeta as atividades diárias. O estudo também contextualiza o avanço de tratamentos como os anticorpos monoclonais donanemabe e lecanemabe, que podem retardar o declínio cognitivo em fases iniciais, mas com alto custo.
Matérias originais
- Quais são as pistas do Alzheimer antes dos primeiros sintomas? · revistapesquisa.fapesp.br

