Estigma da obesidade afasta pacientes do tratamento e prejudica saúde

Destaques
- •Estigma da obesidade causa danos físicos e psicológicos, reduzindo chances de cuidado adequado.
- •Estudo aponta que quase 98% das pesquisas na América Latina e Caribe registram preconceito associado ao peso.
- •Evolução no reconhecimento da obesidade como doença ainda é lenta, mas avanços em medicamentos e informação impulsionam o debate.
O estigma e o preconceito associados à obesidade, frequentemente vista como resultado de preguiça ou falta de força de vontade, representam um obstáculo significativo no tratamento da condição, que afeta mais de 1 bilhão de pessoas no mundo. A ideia de que a perda de peso depende apenas de “fechar a boca e se mexer” ignora a complexidade biológica da doença, que envolve fatores hormonais, genéticos, emocionais e ambientais. Essa visão equivocada não só prejudica a saúde física e psicológica dos pacientes, mas também os afasta dos serviços de saúde e dos tratamentos adequados.
Consensos internacionais, publicados na revista Nature Medicine, alertam que o estigma pode causar danos físicos e psicológicos, diminuindo as chances de um cuidado eficaz. Na prática, pessoas que se sentem julgadas tendem a adiar ou evitar consultas médicas e exames, além de abandonar o acompanhamento terapêutico, especialmente diante de dificuldades na perda de peso. O estresse gerado pela discriminação pode agravar quadros de ansiedade e depressão, criando um ciclo vicioso onde o preconceito afasta do cuidado e a falta de cuidado intensifica a doença.
Profissionais de saúde como fonte de estigma
Um estudo da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), publicado na revista The Lancet Regional Health – Americas, analisou 46 pesquisas na América Latina e Caribe e revelou que quase 98% delas registraram experiências de preconceito relacionadas ao peso. As mulheres são as mais afetadas, e o estigma frequentemente se manifesta nos próprios serviços de saúde, com relatos de desrespeito, julgamento moral e atendimento inadequado por parte dos profissionais. Essa atitude, muitas vezes decorrente de desinformação sobre a complexidade da obesidade, torna-se mais um obstáculo para o cuidado.
“A literatura científica é clara: os profissionais de saúde são uma fonte frequente de estigma de peso”, afirma Felipe Henning Gaia Duarte, endocrinologista e presidente da Sbem-SP. Ele explica que a formação médica tradicional focava na ideia de que obesidade era apenas uma questão de “comer demais e se mexer de menos”, mas hoje se sabe que a regulação do peso é multifatorial. A falta de informação e a formação desatualizada contribuem para que profissionais, mesmo sem má intenção, perpetuem o estigma.
Evolução e desafios no combate ao preconceito
Embora a situação esteja evoluindo, o estigma em torno da obesidade ainda é considerável. Priscila Mattar, endocrinologista e vice-presidente médica da Novo Nordisk no Brasil, compara o cenário atual com o da saúde mental há algumas décadas, que também era cercado por grande estigma. Ela observa que, apesar de ainda haver preconceito, o debate está mais aberto e o conhecimento sobre a obesidade se tornou mais democrático com a internet.
Medicamentos modernos têm ajudado a evidenciar a base biológica da obesidade, mas a visão de que usá-los é um “atalho” persiste. Especialistas ressaltam que isso não ocorre com outras doenças crônicas, como hipertensão ou diabetes. Os medicamentos atuam na regulação de fome e saciedade, auxiliando o paciente a mudar hábitos com maior chance de sucesso, e não substituem um estilo de vida saudável. A interrupção do tratamento, comum em doenças crônicas, não deve ser vista como fracasso pessoal, mas como a natureza da doença.
Um estudo de 2025 publicado na revista Obesity Science & Practice mostrou que apenas informar sobre a eficácia dos medicamentos não alterou a crença de que obesidade é questão de força de vontade. A percepção de “atalho” é um dos principais fatores que alimentam o julgamento contra quem utiliza medicação.
O que diz a pesquisa
Uma revisão integrativa da literatura, publicada em 2020 na revista Psicologia: Ciência e Profissão, investigou as consequências psicossociais do estigma do peso em adultos e sua influência no tratamento da obesidade. A pesquisa, que buscou artigos em bases como PubMed, Web of Science e PsycINFO, selecionou quinze artigos que abordaram a relação entre estigma, psicopatologias e transtornos alimentares, bem como a estigmatização entre profissionais de saúde. Os resultados indicam um grande impacto do estigma na saúde psicossocial de pessoas com obesidade e atitudes estigmatizantes de profissionais de saúde no cuidado terapêutico. O estudo aponta para um enfoque patológico no tratamento da obesidade, com estratégias comportamentais que minimizam a compreensão da problemática. O modelo biomédico atual não abrange as demandas psicossociais, sendo necessária a capacitação de profissionais e a implementação de protocolos de intervenção específicos. A contribuição de diversas áreas, especialmente da saúde mental, é essencial para uma perspectiva integral e humanizada.
Caminhos para um cuidado humanizado
Mudar a visão sobre a obesidade exige um conjunto de ações. Felipe Henning Gaia Duarte sugere a formação contínua de profissionais de saúde com conteúdo atualizado sobre a biologia da doença, o uso de linguagem respeitosa na mídia, escolas e consultórios, e o acesso justo ao tratamento. Além disso, é fundamental que políticas públicas tratem a obesidade como doença crônica, com cuidado contínuo, e não como uma escolha individual. A forma como os profissionais de saúde acolhem os pacientes pode ser decisiva para que eles acreditem na possibilidade de tratamento e melhora.
Tamiris de Sá, influenciadora que vive com obesidade e lipedema, destacou durante o Congresso Latinoamericano de Obesidade (Flaso 2026) que a maneira como um paciente é recebido no consultório pode mudar sua vida. Ela enfatiza que um acolhimento positivo pode fazer o paciente acreditar que existe um caminho e que ele receberá ajuda, enquanto uma abordagem negativa pode levá-lo a desistir completamente do tratamento.
Pesquisa citada
- Impacto das Consequências Psicossociais do Estigma do Peso no Tratamento da Obesidade: uma Revisão Integrativa da Literatura
Psicologia: Ciência e Profissão · 2020
Matérias originais
- Como o estigma da obesidade afasta as pessoas do tratamento · drauziovarella.uol.com.br



