Endividamento familiar no Brasil cai levemente em outubro, mas alta renda tem piora

Destaques
- •A parcela de famílias brasileiras muito endividadas caiu para 16,8% em outubro, o menor nível desde abril.
- •A inadimplência geral recuou, mas famílias de alta renda registraram aumento de mais de 30% em dívidas atrasadas em 12 meses.
- •Especialistas apontam o crédito rotativo do cartão, com juros de até 451,7% ao ano, como um dos vilões do endividamento.
A parcela de famílias brasileiras que se consideram muito endividadas caiu para 16,8% em outubro, o menor patamar desde abril, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), divulgada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). A inadimplência, que mede famílias com dívidas em atraso, também apresentou melhora pelo segundo mês consecutivo, caindo de 29,6% para 29,3% em outubro.
Apesar da melhora geral, a pesquisa aponta um cenário preocupante para as famílias de alta renda. Dados do Banco Central (BC) revelam que a taxa de inadimplência cresceu 38,8% entre brasileiros que ganham de 10 a 20 salários mínimos e 35,8% entre aqueles com renda acima de 20 salários mínimos, na comparação com agosto do ano anterior. Embora ainda registrem taxas menores, foi entre os mais ricos que o indicador apresentou as maiores altas percentuais.
O que explica a alta inadimplência entre os mais ricos?
Especialistas ouvidos pelo g1 apontam o crédito rotativo do cartão como um dos principais vilões. Essa modalidade emergencial, de acesso imediato e sem nova contratação de empréstimo, pode ter juros extremamente elevados. Dados preliminares do BC para setembro indicam que a taxa média de juros do rotativo do cartão chegou a 451,7% ao ano (15,29% ao mês).
Já os juros do parcelamento da fatura, onde o cliente divide o saldo devido, atingiram 193% ao ano (9,37% ao mês). "O cartão de crédito é uma faca de dois gumes. Ele pode ajudar no orçamento se a pessoa conseguir se organizar. Mas, infelizmente, a maior parte da população ainda enxerga o cartão como uma oportunidade de esticar o orçamento no curto prazo, e o resultado disso é um juro exorbitante", afirma Fabio Bentes, economista-chefe da CNC.
Crédito às famílias e outros fatores de pressão
O cenário de juros elevados ocorre em meio à expansão do crédito às famílias. Segundo o BC, o estoque das operações de crédito para pessoas físicas cresceu 9,9% nos 12 meses encerrados em setembro. No rotativo do cartão, as concessões avançaram 12,6% em setembro, totalizando R$ 37,3 bilhões.
A mudança comportamental do brasileiro, com acesso mais fácil ao consumo pela internet, também contribui para o aumento do uso do cartão e das compras por impulso. Outro fator de pressão é a inflação, que segue acima da meta, com o IPCA-15 subindo 0,32% em outubro e acumulando 4,62% em 12 meses.
Apesar do início da queda da taxa básica de juros (Selic), que está em 13,75% ao ano, os efeitos do período prolongado de crédito caro ainda pesam no orçamento das famílias. "O brasileiro tem o hábito de pagar o preço da facilidade. No caso do crédito, esse preço é a taxa de juros elevada do cartão de crédito", diz Bentes.
Endividamento por faixa de renda
A pesquisa da CNC detalha o endividamento por faixas de renda. Entre as famílias que ganham até 3 salários mínimos, o percentual de inadimplentes subiu de 38,5% para 38,6% em outubro, sendo a única faixa onde o indicador avançou. Já entre aquelas com renda superior a 10 salários mínimos, a inadimplência caiu de 71,9% para 71,5%.
O percentual de famílias com algum tipo de dívida a vencer ficou em 81,6% em outubro. O índice teve baixa de apenas 0,1 ponto percentual na comparação com setembro, mas continua acima dos 79,5% registrados no mesmo mês de 2025. A CNC projeta estabilidade no endividamento geral até dezembro, com a inadimplência continuando em trajetória de queda.



