Empresas buscam recuperação judicial e extrajudicial em meio a juros altos e erros estratégicos

Destaques
- •Um número recorde de empresas recorreu à recuperação judicial e extrajudicial em 2025, com a tendência se mantendo em 2026, pressionadas por juros altos e decisões estratégicas equivocadas.
- •Especialistas apontam que, embora o cenário econômico com crédito caro seja um fator agravante, erros de gestão, endividamento excessivo e falta de adaptação ao mercado são as causas primárias das crises.
- •O futuro dessas empresas dependerá de reestruturações financeiras eficazes, mudanças de modelo de negócio e adaptação a um mercado em constante evolução, com atenção especial à geração de caixa e à sustentabilidade operacional.
O ano de 2025 registrou um número recorde de 977 processos de recuperação judicial, envolvendo 2.466 empresas, segundo a Serasa Experian. A tendência de dificuldades financeiras se mantém em 2026, com 65 processos e 237 empresas em maio. A pressão dos juros altos e do crédito caro, somada a erros estratégicos, tem levado diversas companhias a buscar a recuperação judicial ou extrajudicial para renegociar suas dívidas e reorganizar suas finanças.
Especialistas como Leandro Guissoni, professor da FGV, e Altair Heitor, CFO da Palin & Martins, ressaltam que o ambiente econômico desfavorável, com juros elevados, é um agravante, mas não a única causa das crises. Erros estratégicos, como endividamento excessivo para expansão, perda de margens, demora na adaptação operacional e aquisições mal sucedidas, são apontados como os principais motivos que levam as empresas a essa situação.
O que leva as empresas à recuperação?
A dificuldade em honrar compromissos financeiros, seja por falta de caixa ou por condições contratuais insustentáveis, é o resultado final de uma crise. A origem, no entanto, pode ser multifacetada. Bruno Boris, sócio fundador do Bruno Boris Advogados, destaca que empresas que dependem de crédito para operar são mais vulneráveis aos juros altos. No entanto, ele pondera que o nível de endividamento e a organização interna de cada companhia são fatores cruciais.
Altair Heitor complementa que a análise deve ir além do cenário macroeconômico. Fatores como a perda de competitividade de operações, a expansão incompatível com a capacidade financeira e aquisições que não trouxeram o retorno esperado são pontos de investigação essenciais para diagnosticar a raiz do problema.
Grandes nomes buscam reestruturação
A lista de empresas em recuperação inclui nomes de peso em diversos setores. A Raízen, em recuperação extrajudicial, busca reestruturar cerca de R$ 61,4 bilhões em dívidas. A Braskem, também em recuperação extrajudicial, negocia um acordo para reestruturar US$ 10,9 bilhões em dívidas. No varejo, as Casas Bahia pediram recuperação judicial com um passivo de R$ 17,3 bilhões, enquanto o GPA busca renegociar R$ 4,6 bilhões.
Outras empresas como Oncoclínicas (saúde, R$ 5,7 bilhões), Grupo Euro17 (crédito, R$ 1,72 bilhão), Grupo Toky (varejo, R$ 1,1 bilhão), Alliança Saúde (saúde, R$ 1,1 bilhão), Ri Happy e PBKids (brinquedos, R$ 827,4 milhões), Ruiz Coffees (agronegócio, R$ 775 milhões), St. Marché (supermercados), Grupo Gennius (alimentação, R$ 265,2 milhões), Marabraz (móveis, R$ 140 milhões), CVLB (varejo, R$ 1,71 bilhão) e Grupo Estrela (brinquedos, R$ 109,2 milhões) também enfrentam processos de reestruturação.
O que esperar e como evitar a crise
Para Leandro Guissoni, o momento da decisão é crucial. Empresas que agem com fôlego financeiro, como o Magazine Luiza fez em sua transformação digital, conseguem realizar mudanças graduais. Quando a crise é iminente, são necessárias mudanças radicais, como as exemplificadas pela Amazon (modelo de marketplace) e Aramis (mudança de portfólio de produtos).
Altair Heitor recomenda que, após a renegociação da dívida, a empresa deve ser capaz de se sustentar com sua operação. Isso envolve avaliar a demanda, as margens, a geração de caixa operacional e a eficiência dos custos. Ele alerta que vender mais nem sempre significa melhorar o caixa, e que o Ebitda não deve ser confundido com dinheiro disponível.
Bruno Boris sugere que uma recuperação bem-sucedida envolve a mitigação de custos operacionais e a renegociação com fornecedores sem perda de mercado. Planos que se baseiam apenas em descontos e prazos longos, sem mudanças estruturais, podem apenas adiar o problema. A segurança jurídica e a previsibilidade tributária são também fatores importantes para a estabilidade empresarial.



