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Empresa israelense é suspeita de rastrear usuários da Starlink via anúncios

27 de outubro de 2026
Empresa israelense é suspeita de rastrear usuários da Starlink via anúncios

Destaques

  • •A empresa Discover-Tech é suspeita de usar anúncios digitais para localizar e monitorar usuários da Starlink.
  • •A técnica explora a coleta de dados durante leilões de publicidade online, associando IPs e identificadores de anúncios.
  • •A investigação aponta para o uso potencial em zonas de conflito e a associação com programas espiões.

A empresa israelense Discover-Tech é suspeita de utilizar anúncios digitais para localizar e monitorar usuários da Starlink, serviço de internet via satélite da SpaceX. A informação foi divulgada pela Reuters, com base em reportagem da TrendAI, unidade de pesquisa da Trend Micro. Seis fontes indicaram que a atividade publicitária da companhia é considerada suspeita.

Um relatório público da TrendAI, divulgado em 15 de outubro, identificou o operador pelo codinome Shadow-Earth-79. A análise mostrou que ele liderava os lances vencedores para anúncios direcionados a conexões da Starlink em 105 países, incluindo o Brasil. A suspeita é que a empresa esteja explorando a estrutura da publicidade digital para coletar informações sobre usuários e dispositivos.

Como anúncios podem rastrear usuários?

O mecanismo por trás dessa suspeita se baseia no funcionamento da publicidade online. Quando um usuário acessa um site ou aplicativo com anúncios, sistemas automatizados realizam leilões para determinar qual propaganda será exibida. Para definir o lance, esses sistemas compartilham dados sobre o usuário e o dispositivo, como endereço de protocolo de internet (IP), identificadores publicitários, características do aparelho e localização.

A empresa Confiant, que investigou a Discover-Tech separadamente, relatou que a companhia combinava endereços IP, identificadores de anúncios e cookies. O cruzamento dessas informações permite associar diferentes acessos ao mesmo dispositivo e, consequentemente, construir perfis de navegação. Essa coleta de dados pode ocorrer mesmo sem o clique no anúncio, durante o seu carregamento.

A Confiant também observou a presença de anúncios da Discover-Tech em redes de governos e outras organizações consideradas sensíveis. O interesse específico nas conexões da Starlink se concentra nos endereços IP vinculados ao serviço, que podem ser usados para inferir a localização dos usuários, embora com margem de erro.

Por que usuários da Starlink são alvos?

A internet por satélite, como a oferecida pela Starlink, é frequentemente utilizada em zonas de conflito onde as redes terrestres tradicionais estão comprometidas ou indisponíveis. A identificação de usuários nesses locais pode ter valor significativo para operações de inteligência.

A TrendAI detectou atividade expressiva do operador em países como Síria, Líbia, Iêmen e Sudão do Sul. Os pesquisadores apontam que os padrões de compra de anúncios e as funções identificadas na infraestrutura da Discover-Tech são compatíveis com uma plataforma de rastreamento e coleta de inteligência, com um grau de confiança moderado a alto.

Associação com programas espiões e ações do Google

Uma investigação anterior do Citizen Lab, da Universidade de Toronto, associou anúncios comprados pela Discover-Tech à distribuição de um programa espião da empresa Candiru. Essa distribuição teria ocorrido em ataques contra a emissora Al Jazeera, em 2024 e 2025, visando pelo menos 45 dispositivos da emissora.

A técnica utilizada é conhecida como "zero-click" (sem clique), onde a simples exibição de um anúncio pode iniciar uma exploração de falhas de segurança e a infecção do aparelho. No entanto, o Citizen Lab ressalva que a identificação desse método na Al Jazeera não permite concluir que o mesmo tenha sido aplicado aos usuários da Starlink.

Em resposta a essas descobertas, o Google retirou a Discover-Tech de seus cadastros de fornecedores e encerrou seu acesso às plataformas de leilão de anúncios no início de outubro. A Discover-Tech, seu presidente-executivo e a SpaceX não comentaram as alegações.

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