Economistas alertam para risco fiscal e juros altos no Brasil

Destaques
- •Pesquisadores e ex-diretores do Banco Central apontam o crescimento descontrolado dos gastos públicos como principal fator para a pressão sobre a economia brasileira.
- •A falta de clareza sobre a necessidade de um ajuste fiscal profundo e a dificuldade política em implementá-lo podem levar o país a um cenário de juros e câmbio mais elevados, impactando o crescimento.
- •O mercado financeiro reage com volatilidade, e a capacidade do governo em apresentar um plano crível para estabilizar a dívida pública será crucial para a confiança dos investidores e a trajetória econômica.
A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva acendeu um alerta entre economistas e pesquisadores sobre a saúde fiscal do Brasil. Especialistas como Samuel Pessôa, do Ibre-FGV, e Alexandre Schwartsman, ex-diretor do Banco Central, apontam o ritmo acelerado de crescimento dos gastos públicos primários, acima da expansão da economia, como a raiz do problema. Essa dinâmica, segundo eles, pressiona a inflação e obriga o Banco Central a manter os juros em patamares elevados, além de gerar incerteza no mercado financeiro, como demonstrado pela volatilidade recente no câmbio e na bolsa.
Diagnóstico Fiscal e a Visão do Presidente
Samuel Pessôa explica que o gasto obrigatório do governo cresce, por força de regras de indexação, em velocidade superior à do crescimento da economia. Essa discrepância, se não corrigida, gera pressão inflacionária e demanda juros mais altos. Ele critica a aparente falta de clareza do presidente Lula sobre essa relação, sugerindo que o mandatário atribui os juros elevados a pressões externas, como as da Faria Lima, em vez de reconhecer a conexão com o aumento das despesas públicas. Essa falta de alinhamento, para Pessôa, sinaliza dificuldades futuras e antecipa a preocupação dos mercados.
Alexandre Schwartsman reforça a necessidade de um "baita ajuste fiscal", que requer uma mudança profunda na política econômica. Ele ressalta que o problema não é a capacidade técnica de um ministro da Fazenda, mas as condições políticas para realizar o ajuste. Medidas como mudanças na política de salário mínimo, reforma da Previdência, alteração nas regras de acesso ao BPC e fim da indexação de pisos constitucionais são apontadas como necessárias, mas de difícil aprovação política.
Consequências para Juros, Câmbio e Investimentos
A falta de um ajuste fiscal crível pode levar o Brasil a conviver com um cenário de câmbio e juros mais pressionados. Schwartsman avalia que o Banco Central pode interromper o ciclo de queda da taxa básica de juros já na próxima semana, diante da desvalorização do câmbio e do aumento das expectativas de inflação. A capacidade do governo de tomar dívida a um custo razoável também estaria em risco, com a emissão de títulos se tornando mais cara.
A Instituição Fiscal Independente (IFI) estima que um ajuste fiscal de até R$ 450 bilhões seria necessário para estabilizar a dívida pública. O desafio é promover essa mudança sem agravar a desaceleração econômica e em meio à pressão de despesas obrigatórias. A Forbes destaca que o Brasil registra déficits primários desde 2014, e a dívida bruta já atingiu 82,9% do PIB. O aumento do endividamento e o custo de carregar a dívida pesam, influenciando as taxas de mercado e as condições de crédito para empresas e famílias, limitando a capacidade de expansão da economia.
A combinação de crédito caro e endividamento elevado restringe o consumo, o investimento privado e a capacidade de crescimento. A desvalorização do real pode encarecer produtos importados, mantendo pressões inflacionárias mesmo com a economia perdendo força. Se essas pressões persistirem, o Banco Central terá menos espaço para reduzir os juros sem comprometer a convergência da inflação para a meta.
O Papel do Congresso e as Próximas Etapas
A aprovação de medidas fiscais significativas dependerá do Congresso Nacional, onde propostas de corte de gastos ou aumento de impostos podem enfrentar resistência. A IFI sugere que o governo apresente um plano com metas claras e graduais para melhorar as contas públicas, visando estabilizar a dívida em torno de 2% do PIB. A credibilidade desse plano será fundamental para reduzir o custo da dívida e restaurar a confiança dos investidores.
A revisão de benefícios tributários, que somam quase R$ 650 bilhões por ano, é apontada como uma frente de ação. No entanto, a IFI ressalta que isso não elimina a necessidade de enfrentar o crescimento das despesas obrigatórias, como as da Previdência e os pisos de saúde e educação. A dificuldade em cortar gastos reside nas regras que determinam seu crescimento, exigindo mudanças estruturais e negociações políticas complexas. A capacidade do governo em conciliar proteção social com investimentos que sustentem o crescimento de longo prazo será o principal teste.
Matérias originais
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