Di Cavalcanti: 50 anos de saudade do modernista que retratou o Brasil

Destaques
- •Morre Di Cavalcanti, um dos pilares do modernismo brasileiro, aos 79 anos.
- •Artista foi responsável por obras icônicas como "Samba" e "Carnaval", além de painéis em Brasília.
- •Legado de Di Cavalcanti continua a inspirar pela sua representação única da cultura e do povo brasileiro.
Há 50 anos, em 26 de outubro de 1976, falecia o pintor, caricaturista e escritor Di Cavalcanti, um dos mais importantes representantes do modernismo brasileiro. Nascido em 1897 no Rio de Janeiro, Di Cavalcanti foi um dos idealizadores da Semana de Arte Moderna de 1922, evento que marcou a renovação artística no país. Sua obra, vasta e original, destacou-se pela temática nacional, com foco no cotidiano dos trabalhadores, nas festas populares e, notavelmente, na figura da mulher negra.
Di Cavalcanti iniciou sua trajetória artística como autodidata, fazendo charges sociais e caricaturas políticas. Em 1916, mudou-se para São Paulo para estudar Direito, mas frequentou o ateliê do pintor George Elpons e se aproximou de intelectuais como Mário e Oswald de Andrade. Foi fundamental na organização da Semana de Arte Moderna, para a qual criou o catálogo e os cartazes promocionais.
Influências europeias e brasilidade
Em 1923, o artista passou três anos na Europa, estudando em Paris e convivendo com nomes como Pablo Picasso e Henri Matisse. Essa experiência o levou a adaptar os elementos formais das vanguardas europeias à realidade brasileira, criando uma expressão nacionalista do estilo moderno. A tela "Samba", de 1925, exemplifica essa fusão, mesclando influências da Escola de Paris com a poética tropical e as cores vibrantes do Brasil.
A temática popular e a figura da mulher negra tornaram-se recorrentes em sua obra, abordando manifestações culturais até então marginalizadas. Ao retornar ao Brasil em 1926, Di Cavalcanti filiou-se ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) em 1928. No ano seguinte, criou o díptico "Samba e Carnaval", o primeiro mural modernista do país, que gerou desconforto na elite da época por retratar o povo brasileiro em seus morros e subúrbios.
Engajamento político e crítica à arte abstrata
Influenciado pelo expressionismo alemão, Di Cavalcanti explorou o uso acentuado da cor e a simplificação das formas em obras como "Cinco Moças de Guaratinguetá". Em 1930, publicou "A Realidade Brasileira", álbum de desenhos que satirizava o militarismo e as oligarquias. Sua participação na fundação do Clube dos Artistas Modernos (CAM) em 1932 o levou a ser preso, acusado de oposição ao governo de Getúlio Vargas.
Após ser libertado, casou-se com a pintora Noêmia Mourão. Em 1936, foi novamente preso por suspeita de envolvimento no Levante Comunista, buscando exílio em Paris até 1940. Durante a Segunda Guerra Mundial, retornou ao Brasil e se tornou um crítico ferrenho da arte abstrata, considerando-a "estéril" e "niilista".
Legado em Brasília e reconhecimento internacional
Di Cavalcanti expôs em diversos países e ilustrou obras de escritores como Vinícius de Morais e Jorge Amado. Em 1951, doou 550 obras ao Museu de Arte Moderna de São Paulo e, na II Bienal de São Paulo, recebeu o prêmio de melhor pintor nacional.
A convite de Oscar Niemeyer, participou da decoração de edifícios públicos em Brasília, criando tapeçarias para o Palácio da Alvorada e o painel "Candangos" para a Câmara dos Deputados. Essas obras continham discretos comentários sociais, como a tapeçaria "Múmias", uma referência irônica à classe política.
Após o golpe militar de 1964, Di Cavalcanti, apoiador de João Goulart, foi removido do cargo de adido cultural e exilou-se na França com sua companheira Marina Montini. Em Paris, publicou "Reminiscências Líricas de um Perfeito Carioca" e recebeu o título de doutor Honoris Causa da UFBA. Faleceu em 1976, aos 79 anos, deixando um legado inestimável para a arte brasileira.
Matérias originais
- Di Cavalcanti: a alma brasileira na arte moderna · operamundi.uol.com.br



