Crise no suco de laranja: consumo em queda e doença devastam produção brasileira

Destaques
- •Brasil, líder mundial na produção de suco de laranja, enfrenta queda de 46,5% no consumo global e impacto da doença greening nos pomares.
- •O preço do suco disparou em 2024 devido à escassez, mas agora despenca com a recuperação da produção e estoques elevados, afetando agricultores.
- •Acompanhar a recuperação da produção brasileira, a busca por novas regiões de cultivo e as estratégias das grandes processadoras para lidar com os estoques.
O Brasil, maior produtor mundial de suco de laranja, enfrenta um cenário desafiador com a queda acentuada no consumo global e a devastação de pomares pela doença greening. O setor, que depende quase inteiramente de exportações, vê sua indústria amargar as consequências de um mercado em transformação e de pragas sem cura.
A produção de suco de laranja, uma cultura que exige anos para se estabelecer e é vulnerável a doenças e intempéries, tornou-se um negócio complexo. Historicamente, o Brasil se consolidou como líder mundial após geadas devastarem os pomares da Flórida, nos Estados Unidos, abrindo espaço para empresas como Cutrale e Citrosuco. Atualmente, o país responde por 76% da produção global, com estimativas de exportar 973 mil toneladas entre julho de 2026 e junho de 2027.
Queda no consumo e mudança de hábitos
Nas últimas décadas, o suco de laranja perdeu espaço no café da manhã de consumidores em todo o mundo. Nos Estados Unidos, o consumo de água cresceu significativamente, enquanto o suco passou a ser questionado por seu teor de açúcar e calorias. Anúncios históricos, como os da Sunkist no início do século 20, promoviam a bebida associada à saúde, mas essa percepção mudou.
O consumo mundial de suco de laranja encolheu quase pela metade entre as safras 2010 e 2025, uma queda de 46,5%. Países como Alemanha, França e Japão também registraram declínio. Christian Lohbauer, ex-presidente da CitrusBR, associação de exportadoras, aponta que o mercado estagnou após um período de crescimento.
Avanço do greening e encarecimento da produção
Um fator crucial para a crise é o avanço do greening, uma doença sem cura transmitida por um inseto, que afeta as laranjeiras ao comprometer a circulação de nutrientes. A doença, que chegou à Flórida em 2005, causou uma queda de mais de 70% na produção de frutas cítricas no estado. Globalmente, a produção de laranjas recuou 18% entre as safras 2010/11 e 2025/26, devido a doenças, secas, geadas e furacões.
No Brasil, o greening atingiu o interior de São Paulo, principal região produtora, com quase metade das árvores contaminadas em 2026, segundo o Fundecitrus. Essa escassez levou a um disparo nos preços do suco de laranja, atingindo níveis recordes em 2024. Produtores buscam novas regiões, como Mato Grosso do Sul, para fugir da doença.
Despencada de preços e estoques elevados
Com a recuperação da produção brasileira e a queda no consumo, o cenário se inverteu. Na safra 2025/26, o Brasil exportou volume similar ao ano anterior, mas arrecadou quase 30% menos. Os estoques das principais processadoras somavam 616 mil toneladas em dezembro de 2025, um aumento de 75% em relação ao ano anterior, segundo a CitrusBR.
O mercado é concentrado em três empresas: Cutrale, Citrosuco e Louis Dreyfus, que respondem por 90% da produção nacional. Com os estoques altos, as processadoras priorizam frutas próprias e de contratos firmados, reduzindo compras avulsas e pressionando os preços pagos aos agricultores. A caixa de laranja para indústria, que chegou a superar R$ 90 em outubro de 2024, era negociada a R$ 26,96 em outubro de 2026.



