Crise climática pode exigir adaptação do regime de metas de inflação no Brasil
Destaques
- •Crise climática eleva custos de produção e pressiona inflação global e de alimentos, exigindo novas estratégias de política monetária.
- •Estudo estima que aquecimento global pode adicionar até 1,18 ponto percentual à inflação mundial e 3,23 pontos à de alimentos até 2035.
- •Proposta de meta adaptativa para o Brasil sugere banda de tolerância maior e horizonte de convergência ampliado para lidar com choques climáticos.
A crise climática, marcada por secas, enchentes, ondas de calor e tempestades, está afetando a produção de alimentos, a geração de energia e as cadeias de suprimentos globais. Esses eventos elevam os preços e dificultam o controle da inflação, levando à necessidade de discutir a adaptação do regime de metas de inflação no Brasil. A transição para uma economia de baixo carbono também pode gerar custos adicionais no curto prazo, devido a investimentos e mudanças na matriz energética, embora possa reduzir custos no longo prazo através de inovação e eficiência.
Impacto da crise climática na inflação
Um estudo de Barnes et al. (2024) estima que o aquecimento global poderá adicionar entre 0,32% e 1,18% à inflação mundial e entre 0,92% e 3,23% à inflação de alimentos até 2035. Esses choques climáticos representam um desafio para a política monetária tradicional, que geralmente responde com o aumento das taxas de juros.
No entanto, juros mais altos não resolvem problemas como safras perdidas ou infraestrutura destruída. Um aperto monetário excessivo pode prejudicar o consumo, o investimento e o emprego sem atacar as causas da alta de preços. Por outro lado, acomodar esses aumentos indiscriminadamente pode desancorar expectativas e salários, gerando um processo inflacionário persistente.
Proposta de regime de metas adaptativo para o Brasil
O Banco Central do Brasil (BCB) já tem avançado na incorporação de riscos socioambientais, mas pode integrar melhor os riscos climáticos à política monetária. Uma proposta em discussão sugere um regime de metas adaptativo, que manteria a meta como referência, mas toleraria desvios temporários causados por choques de oferta. Para choques persistentes, o horizonte de convergência para a meta seria ampliado de três para cinco anos.
Especificamente para o Brasil, a proposta é de uma meta central de pelo menos 4% ao ano, com uma banda de tolerância de 2%, em contraste com a meta atual de 3% e intervalo de 1,5 ponto. Essa adaptação visa reconhecer que a busca por uma inflação muito baixa pode ser custosa, exigindo juros elevados e prejudicando o crescimento, especialmente diante de fatores como indexação, preços administrados e choques em commodities como petróleo e fertilizantes.
Medidas complementares e coordenação de políticas
A adaptação à crise climática também demanda outras ações, como a criação de estoques estratégicos de alimentos e matérias-primas, a implementação de medidas fiscais temporárias e o uso de instrumentos macroprudenciais. O apoio do BCB ao crédito verde também é considerado fundamental.
A adaptação das metas de inflação não significa abandonar a estabilidade de preços, mas sim reconhecer que ela depende também de uma oferta resiliente e da coordenação entre diferentes políticas públicas. Diante da recorrência de choques climáticos, depender exclusivamente da política de juros pode impor custos elevados e comprometer a estabilidade econômica no longo prazo.
Matérias originais
- Inflação e risco climático: por que adaptar as metas? · estadao.com.br



