Correntes oceânicas vitais para o clima podem enfraquecer até 2100

Destaques
- •Sistema de correntes do Atlântico (AMOC) pode sofrer enfraquecimento significativo até o fim do século, alertam pesquisadores.
- •Apenas dois de 91 planos climáticos nacionais mencionam o risco, e nenhum prevê medidas concretas para um colapso.
- •Brasil e Irlanda citam o risco, mas não detalham ações para lidar com possíveis colapsos da circulação.
Um sistema crucial de correntes oceânicas, a Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico (AMOC), que regula o clima global, pode sofrer um enfraquecimento significativo até o final do século. No entanto, a maioria dos governos ignora esse risco em seus planos de adaptação climática. De 91 planos nacionais apresentados à Convenção das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, apenas dois mencionam a possibilidade de colapso dessas correntes, e nenhum deles propõe medidas concretas para enfrentar tal cenário. O alerta foi publicado na revista Nature Sustainability por pesquisadores que analisaram a preparação dos países para mudanças na circulação do Oceano Atlântico.
O que é a AMOC e como ela funciona
A AMOC opera como uma esteira transportadora oceânica, movendo águas quentes da superfície para o norte do Atlântico e retornando águas frias em camadas profundas. Esse movimento é essencial para a redistribuição de calor pelo planeta, influenciando temperaturas e padrões de chuva em diversas regiões. Com o aquecimento global, a circulação está enfraquecendo e a projeção é que continue a perder força ao longo deste século. Pesquisadores, contudo, consideram um colapso completo improvável antes de 2100, mas um estudo recente aponta uma redução de 50% na intensidade da AMOC até o fim do século em um cenário intermediário de emissões.
Impactos de um enfraquecimento severo
Um enfraquecimento acentuado da AMOC poderia desencadear mudanças climáticas drásticas. No norte da Europa, a redução do transporte de calor dos trópicos poderia levar a invernos com frio extremo, com simulações indicando temperaturas de até -20 °C em Londres. Regiões dependentes de monções também seriam afetadas, com projeções de enfraquecimento médio de 29% nas monções da África Ocidental e de 19% nas monções de verão da Índia. Essas alterações aumentariam os riscos para o abastecimento de água e a produção de alimentos. Outros estudos apontam maior risco de secas severas em partes da América Central, África Ocidental e Amazônia. A pesca e o nível do mar também poderiam sofrir consequências, impactando comunidades costeiras e estoques pesqueiros.
Brasil e Irlanda mencionam o risco, mas a preparação é limitada
O Brasil está entre os dois países que mencionam a AMOC em seus planos nacionais. O documento brasileiro alerta que o desligamento do sistema poderia deslocar a faixa de chuvas do Atlântico para o sul, potencialmente levando a Floresta Amazônica a um ponto de colapso. A Irlanda é o outro país citado, reconhecendo que a adaptação pode não ser suficiente diante de um colapso. Contudo, os autores da pesquisa avaliam que apenas mencionar o risco não é suficiente. Nenhum dos dois planos apresenta ações concretas para responder à possibilidade de colapso da circulação. A falta de preparo pode gerar prejuízos elevados, especialmente em países com menos recursos para lidar com imprevistos, pois muitos investimentos em infraestrutura são planejados para durar décadas.
Como os países podem se preparar
Os pesquisadores propõem cinco medidas para incorporar o risco da AMOC ao planejamento climático: identificar países e investimentos mais vulneráveis; testar projetos com simulações que considerem o colapso da circulação; priorizar soluções flexíveis; manter o monitoramento das correntes oceânicas; e revisar as projeções climáticas globais. O objetivo é garantir que as decisões tomadas hoje continuem funcionando em diferentes cenários climáticos. A redução rápida das emissões de gases de efeito estufa continua sendo fundamental para mitigar os impactos climáticos.


