Calor associado a 540 mil mortes anuais; mudanças climáticas agravam cenário

Destaques
- •Relatório da Lancet Countdown aponta que 68,4% das mortes anuais por calor entre 2016 e 2023 foram atribuídas às mudanças climáticas.
- •Ondas de calor e eventos climáticos extremos, como secas e chuvas intensas, afetam a segurança alimentar e a saúde global, com perdas econômicas estimadas em US$ 1,07 trilhão em 2025.
- •Cortes de 18% nas emissões até 2030 são necessários para evitar o agravamento da crise climática, segundo a ONU.
Um relatório internacional publicado nesta terça-feira (27) pela Lancet Countdown, iniciativa que monitora mudanças climáticas e saúde mundial, aponta que o calor esteve associado a uma média de 540.800 mortes por ano entre 2016 e 2023. Deste total, 68,4% (369.940 mortes) foram atribuídas às mudanças climáticas influenciadas pelo homem. Os dados, publicados na revista The Lancet, analisaram 400 referências de estudos internacionais e indicam que os últimos 11 anos foram os mais quentes já registrados.
O levantamento destaca que países com baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) são os mais afetados, com as maiores proporções de óbitos relacionadas ao calor. As ondas de calor, frequentemente ligadas a secas extremas, representam uma ameaça à segurança alimentar, tendo afetado 51,8% da superfície mundial em 2025. Paralelamente, houve um aumento na frequência de dias com chuvas intensas, impactando 17,2% da superfície terrestre global anualmente entre 2016 e 2025, com riscos de inundações e deslizamentos.
El Niño e emergência global de saúde
Cientistas acreditam que o fenômeno El Niño, um dos mais devastadores das últimas décadas, agrava os impactos das mudanças climáticas na saúde mundial. O relatório alerta que um El Niño severo pode desencadear crises humanitárias climáticas sem precedentes. As mudanças climáticas foram classificadas como uma emergência global de saúde, exigindo ações coordenadas e baseadas em evidências para proteger a saúde e a sobrevivência.
Além das mortes por desidratação e insegurança alimentar, o aumento das temperaturas favorece a transmissão de doenças como a dengue, pois o mosquito Aedes aegypti se reproduz em ambientes mais quentes e úmidos. O relatório também aponta para a influência do calor na perda financeira global. Em 2025, a exposição ao calor provocou a perda de 573 bilhões de horas potenciais de trabalho, com prejuízos estimados em US$ 1,07 trilhão.
Ações urgentes para evitar o agravamento
Previsões meteorológicas indicam que a temperatura global poderá atingir o nível crítico de 1,5 °C acima do período pré-industrial em 2030, meta estabelecida pelo Acordo de Paris. Para evitar um cenário mais grave, a ONU indica a necessidade de cortes de 18% nas emissões até 2030 e 45% até 2035, além da ampliação da remoção de gás carbônico. O aumento da temperatura global desequilibra as estações climáticas, aumenta ondas de calor e poluição, resultando em mais mortes e doenças.
Apesar de avanços em energias renováveis e políticas climáticas terem evitado cerca de 400.000 mortes em 2023 em comparação com 2016, as medidas atuais são consideradas insuficientes. A Lancet identificou seis tópicos prioritários para evitar impactos catastróficos e ultrapassar as normas do Acordo de Paris.



