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Bruxismo: Meta-análise aponta eficácia de fisioterapia para alívio da dor

30 de outubro de 2026
Bruxismo: Meta-análise aponta eficácia de fisioterapia para alívio da dor

Destaques

  • •Revisão de estudos de 2024 indica que bruxismo do sono afeta 21% da população mundial e o de vigília, 23%.
  • •Fisioterapia orofacial foca em aliviar dor e recuperar funções, sem a meta de eliminar o comportamento.
  • •Meta-análise de 153 estudos confirma benefícios de mobilização da mandíbula, terapia manual e exercícios.

O bruxismo, caracterizado pelo ranger ou apertar dos dentes durante o sono ou acordado, afeta uma parcela significativa da população mundial. Uma revisão de estudos publicada em 2024 estimou que o bruxismo do sono atinge cerca de 21% da população global, enquanto o bruxismo de vigília (acordado) afeta 23%. Essa condição, antes vista como uma sentença com consequências inevitáveis como o desgaste dentário, agora é compreendida por especialistas como um comportamento que pode ser um fator de risco para certas consequências à saúde, e não necessariamente uma doença.

A fisioterapeuta Débora Bevilaqua-Grossi, professora titular da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP (FMRP-USP), explica que a visão sobre o bruxismo mudou. "Ele [bruxismo] é um comportamento e não exatamente uma doença", afirma. A fisioterapia orofacial, também conhecida como bucomaxilofacial, tem se destacado no tratamento das consequências do bruxismo, focando no alívio da dor e na recuperação de funções como falar, comer e mastigar sem desconforto. O campo nasceu do tratamento da disfunção temporomandibular (DTM), que afeta a articulação da mandíbula e os músculos da mastigação, e se expandiu para outras dores faciais.

Diferenças entre bruxismo do sono e de vigília

É crucial diferenciar o bruxismo que ocorre durante o sono daquele que se manifesta enquanto a pessoa está acordada. O bruxismo do sono está mais associado ao desgaste dentário, enquanto o bruxismo de vigília frequentemente se manifesta pelo apertamento dos dentes, com contração muscular prolongada. Segundo Bevilaqua-Grossi, o apertamento diurno tende a sobrecarregar mais os músculos e a articulação, podendo também prejudicar os dentes. "Não tem uma coisa que seja melhor que a outra. Na verdade, as duas são condições difíceis, ruins de tratar", ressalta.

A distinção entre os dois tipos de bruxismo também influencia a abordagem terapêutica. Enquanto o comportamento durante o sono é difícil de monitorar, o bruxismo de vigília pode ser trabalhado com o paciente. Através de exercícios e orientações, o indivíduo aprende a reconhecer a tensão muscular e a relaxar a musculatura, ganhando controle sobre o comportamento.

Sinais de alerta e o papel da fisioterapia

A dor é o principal sinal de alerta para o bruxismo e suas consequências. Dificuldade para abrir ou movimentar a boca, estalos na mandíbula, alterações nos movimentos mandibulares ou a sensação de mudança no encaixe dos dentes também indicam a necessidade de avaliação profissional. Dores de cabeça frequentes, especialmente aquelas que interferem na rotina diária, também devem ser investigadas, podendo necessitar de diagnóstico neurológico.

A fisioterapia não busca eliminar o ato de ranger ou apertar os dentes, pois não há evidências científicas que comprovem a eficácia direta de técnicas fisioterapêuticas nesse sentido. O foco terapêutico está nas consequências do comportamento, visando aliviar a dor, melhorar os movimentos da mandíbula e ensinar o paciente a diferenciar e controlar a contração e o relaxamento muscular. A avaliação fisioterapêutica considera a queixa do paciente, sua rotina (sono, trabalho, estresse), a observação dos movimentos bucais e a palpação dos músculos mastigatórios.

A especialista também destaca a importância da avaliação da região cervical, pois há relações anatômicas e funcionais entre o pescoço e a face. Posturas com a cabeça mantida muito à frente do corpo podem aumentar a sobrecarga muscular cervical e agravar quadros de dor.

Tratamento multidisciplinar e evidências científicas

O tratamento fisioterapêutico geralmente combina terapia manual, exercícios e estratégias de relaxamento. Exercícios respiratórios, focados no uso do diafragma e na redução da tensão muscular do pescoço, são a base para promover relaxamento e aumentar a percepção corporal. A terapia manual atua em pontos de tensão na face e no pescoço, enquanto os exercícios auxiliam o paciente a controlar os movimentos da mandíbula, como o movimento de abrir e fechar a boca sem o contato dos dentes. Um exemplo prático é o exercício de manter a língua relaxada atrás dos dentes da frente e realizar movimentos mandibulares suaves.

O que diz a pesquisa

Uma meta-análise de 153 estudos, publicada no Journal of Clinical Medicine em 2024, avaliou a prevalência global do bruxismo e a eficácia de intervenções. A análise sistemática, que revisou estudos publicados entre 2003 e 2023, encontrou uma prevalência global de bruxismo (sono e vigília) de 22,22%, sendo 21% para bruxismo do sono e 23% para bruxismo de vigília. A pesquisa também indicou que a mobilização da mandíbula realizada por um terapeuta, a terapia manual em pontos-gatilho e exercícios supervisionados de mandíbula e postura são eficazes na redução da dor crônica associada à DTM.

O estudo concluiu que um em cada quatro indivíduos pode apresentar bruxismo de vigília e que o bruxismo é um fator significativo entre mulheres, com a idade sendo um fator relevante para a ocorrência de bruxismo do sono em mulheres. Entre as limitações, o estudo apontou a falta de análise de outros fatores.

O bruxismo pode estar interligado a diversos fatores, como sono, estresse, emoções, saúde dental, muscular e articular. Por isso, o tratamento pode envolver uma equipe multidisciplinar, incluindo dentistas, fisioterapeutas, profissionais de saúde mental, especialistas em sono e neurologistas, dependendo da complexidade do caso. A colaboração entre esses profissionais é essencial, com cada um reconhecendo seus limites e sabendo o momento de encaminhar o paciente. O tempo de tratamento varia, com casos agudos evoluindo de forma diferente dos crônicos, e as metas devem ser definidas em conjunto com o paciente, considerando não apenas a dor, mas o impacto do problema na sua rotina.

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