Brasileiros buscam segunda residência e cidadania no exterior para diversificar riscos
Destaques
- •Brasileiros buscam ativamente segundas residências e cidadanias em outros países como estratégia de diversificação de riscos e proteção de ativos.
- •Paraguai lidera o interesse, respondendo por 76% das autorizações de residência concedidas a estrangeiros no primeiro semestre de 2026, com um aumento de 81% em relação ao ano anterior.
- •A consultoria Global Citizen Solutions (GCS) destaca a tendência de considerar a jurisdição como uma nova classe de ativo, integrando-a ao planejamento patrimonial.
A busca por uma segunda residência ou cidadania no exterior deixou de ser apenas um projeto de mudança ou facilitação de viagens. Para empresários, investidores e famílias de alto patrimônio, tornou-se uma estratégia central de diversificação de riscos, proteção de ativos e acesso a novos mercados. O fenômeno é evidenciado pelas estatísticas migratórias da América Latina, com destaque para o Paraguai, onde brasileiros representaram mais de três quartos das autorizações de residência concedidas no primeiro semestre de 2026.
Entre janeiro e junho de 2026, o Paraguai emitiu 29.765 autorizações de residência para estrangeiros, um salto de 81% em comparação com o mesmo período de 2025. Desse total, impressionantes 22.628 foram destinadas a brasileiros, totalizando 76% das concessões. Esses números, divulgados pela Direção Nacional de Migrações paraguaia, dimensionam o crescente interesse por alternativas de residência na região.
Jurisdição como nova classe de ativo
O relatório "The Next Decade of Mobility Planning: Jurisdiction as an Asset Class", da consultoria internacional Global Citizen Solutions (GCS), aponta que a escolha do país de residência, cidadania e domicílio dos negócios está se tornando tão relevante quanto investimentos tradicionais no planejamento patrimonial.
A consultoria define a jurisdição como uma nova classe de ativo. Embora uma autorização de residência não seja um investimento negociável nem garanta retorno financeiro direto, seu valor reside nas possibilidades que oferece: acesso a mercados, alternativas de moradia, diversificação geográfica e, em alguns casos, vantagens tributárias.
A GCS observou um triplicamento na procura por serviços de planejamento de residência e cidadania na última década. O Paraguai atrai brasileiros pela proximidade geográfica, integração regional e regras migratórias acessíveis, mesmo sem vantagens fiscais automáticas imediatas.
Facilidades e desafios da residência no Paraguai
O Acordo de Residência do Mercosul facilita a obtenção de autorizações migratórias para cidadãos dos países membros, sem a necessidade de grandes investimentos exigidos em outros programas. O Paraguai adota um sistema de tributação territorial, onde o imposto de renda incide sobre rendimentos de origem local. Essa combinação torna o país atraente para empresários e investidores sul-americanos.
Entretanto, a consultoria ressalta que a residência paraguaia não implica pagamento automático de impostos no país nem isenção de obrigações fiscais no Brasil. A residência fiscal depende de critérios específicos de cada nação, e quem permanece residente fiscal no Brasil continua sujeito às regras tributárias brasileiras, inclusive sobre rendimentos no exterior.
Outras alternativas na América Latina e Europa
O estudo da GCS também destaca Panamá, Uruguai e Argentina como destinos relevantes. O Panamá lidera os programas latino-americanos analisados pela Global Intelligence Unit, divisão de pesquisas da GCS, seguido pelo Paraguai. O levantamento considera custos, acesso e vantagens.
O Uruguai é apontado para quem busca estabilidade institucional e qualidade de vida. O Panamá se destaca pela economia dolarizada e regras tributárias. A Argentina surge com iniciativas de cidadania vinculada a investimentos, embora a implementação dependa das regras efetivas.
Na Europa, a Espanha oferece um caminho mais rápido para a cidadania ibero-americana, com solicitação de nacionalidade após dois anos de residência legal, contra dez anos para outras nacionalidades. O processo completo pode levar de três a quatro anos. O Brasil, com a Emenda Constitucional 131 de 2023, não prevê mais a perda automática da nacionalidade brasileira pela aquisição voluntária de outra.
Por outro lado, o programa Golden Visa da Espanha foi encerrado em abril de 2025, tornando o visto de residência não lucrativa uma alternativa para quem tem recursos para viver sem trabalhar localmente. Portugal, antes um destino popular, agora exige sete anos para naturalização de brasileiros (países de língua portuguesa) e dez anos para outras nacionalidades, com regras mais rigorosas.
Tendências e recomendações
O relatório da GCS identifica cinco tendências para a próxima década: consolidação de programas de residência e cidadania, valorização de alternativas duradouras, diversificação entre países, maior rigor na conformidade e integração dessas decisões ao planejamento patrimonial. Cerca de 80 países oferecem programas de residência ou cidadania, mas as regras podem mudar.
A recomendação central é definir o objetivo (educação dos filhos, acesso a mercados, diversificação patrimonial) antes de escolher o país, analisando a estratégia com o mesmo rigor de qualquer decisão patrimonial relevante.



