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Brasil: IA na saúde mental avança, mas financiamento e adesão são desafios

30 de outubro de 2026

Destaques

  • •Apesar de 9,1% dos brasileiros já terem usado chatbots para saúde mental, a expansão de aplicativos terapêuticos na rede pública enfrenta obstáculos de financiamento.
  • •A experiência alemã com aplicativos prescritos por médicos revela dificuldades em medir a eficácia e manter a adesão dos pacientes a longo prazo.
  • •O futuro da IA na saúde mental no Brasil depende da liberação de verbas, regulamentação pela Anvisa e estratégias para garantir a continuidade do tratamento.

O uso de inteligência artificial (IA) e chatbots para saúde mental tem crescido no Brasil, com 9,1% da população já tendo recorrido a essas ferramentas, segundo o Panorama da Saúde Mental 2026. Entre os motivos para essa preferência estão o menor custo, a disponibilidade 24 horas e a menor sensação de julgamento. No entanto, a expansão de soluções tecnológicas para a rede pública de saúde, como o aplicativo Conemo, desenvolvido para pessoas com sintomas de depressão, esbarra na falta de financiamento federal.

O Conemo, que utiliza a ativação comportamental, já funciona em unidades básicas de saúde de Indaiatuba e Jaguariúna, no interior paulista, e demonstrou resultados positivos em ensaios clínicos. Um estudo publicado no JAMA em 2021 indicou que 40,7% dos pacientes brasileiros que usaram o aplicativo apresentaram redução significativa dos sintomas, contra 28,6% do grupo de controle. A plataforma faz parte da iniciativa e-Saúde Mental no SUS, que visa integrar pacientes, profissionais de saúde e gestores, mas depende de um investimento previsto de R$ 12 milhões que ainda não foi liberado pelo Ministério da Saúde.

Desafios na implementação e adesão

A falta de financiamento federal é um dos principais obstáculos para a expansão do Conemo e outras iniciativas. O projeto foi aprovado em 2025 no Programa de Desenvolvimento e Inovação Local (PDIL) do Ministério da Saúde, mas o investimento não foi liberado. Sem o recurso, o aplicativo deve passar a ser pago pelas prefeituras de Indaiatuba e Jaguariúna a partir de 2027, caso as negociações avancem. Além disso, softwares com finalidade médica precisam de registro na Anvisa, e o grupo responsável pelo Conemo está solicitando essa aprovação como dispositivo médico.

A adesão dos pacientes e profissionais ao tratamento digital também é um desafio. Mesmo quando disponíveis, muitas pessoas desistem de usar os aplicativos após poucas sessões. A psicóloga Andrea Jotta, pesquisadora em ciberpsicologia, alerta para a necessidade de acolhimento e responsabilidade ao lidar com o sofrimento do paciente, algo que, segundo ela, uma máquina pode ter dificuldade em replicar com a precisão necessária.

Experiência internacional e riscos da IA

A Alemanha foi pioneira ao permitir que aplicativos de saúde prescritos por médicos sejam pagos por seguradoras públicas, através do modelo DiGA. No entanto, mesmo nesse cenário, a comprovação de benefícios e a manutenção dos usuários em tratamento continuam sendo desafios. O médico Julian Schwarz, da Brandenburg Medical School, aponta que o modelo alemão ainda carece de critérios comparativos entre os aplicativos e que o país começa agora a exigir medidas de resultado padronizadas.

Schwarz também alerta para os riscos do uso de IA de uso geral para saúde mental, como a tendência dos modelos a concordar com o usuário e a possibilidade de falhas em barreiras de segurança. Ele cita casos de adolescentes nos Estados Unidos que morreram por suicídio após conversas prolongadas com chatbots. No Brasil, dados sugerem uma relação entre o uso de IA e a solidão, com 32,1% das pessoas que se sentiram sós frequentemente relatando o uso da ferramenta para buscar companhia.

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