Brasil discute como manter tratamento de câncer em emergências

Destaques
- •Especialistas debatem a necessidade de integrar o controle do câncer aos planos de preparação e resposta a emergências no Brasil.
- •A pandemia de Covid-19 e as inundações no Rio Grande do Sul evidenciaram a fragilidade do sistema de saúde em manter a continuidade do tratamento oncológico.
- •Cinco prioridades foram definidas para fortalecer a resiliência do sistema, incluindo a integração de dados, proteção de infraestrutura e financiamento flexível.
A crescente carga do câncer no Brasil, com projeções de aumento de 84% nos casos anuais até 2050, exige que o sistema de saúde esteja preparado para manter a continuidade do tratamento oncológico mesmo diante de crises como pandemias e desastres naturais. A pandemia de covid-19 e as inundações no Rio Grande do Sul em 2024 demonstraram como emergências podem comprometer o acesso a consultas, procedimentos, medicamentos e acompanhamento especializado, afetando de forma mais intensa as populações vulneráveis.
Resiliência na jornada oncológica
A resiliência do sistema de saúde, especialmente no contexto do câncer, significa a capacidade de antecipar ameaças, absorver impactos, adaptar a organização dos serviços e aprender com as estratégias de mitigação. Isso vai além de simplesmente restabelecer o funcionamento de hospitais após uma emergência, focando na preservação de todas as etapas essenciais da jornada oncológica, desde a prevenção e diagnóstico até os cuidados paliativos. A experiência brasileira, com o SUS (Sistema Único de Saúde) garantindo acesso universal, ainda enfrenta desafios de financiamento, desigualdades regionais e coordenação.
Essa perspectiva foi debatida em um workshop nacional realizado no Rio de Janeiro em dezembro de 2025, organizado pela IARC (Agência Internacional de Pesquisa em Câncer), Opas (Organização Pan-Americana da Saúde) e Inca (Instituto Nacional de Câncer). O encontro reuniu formuladores de políticas públicas, profissionais de saúde, pesquisadores e sociedade civil para identificar prioridades de ação, cujos resultados foram publicados no periódico The Lancet Regional Health – Americas.
Cinco prioridades para o preparo do sistema
O artigo científico aponta quatro dimensões para fortalecer a resiliência: governança, prestação de serviços, recursos e financiamento. A falta de informação confiável, a ausência de coordenação entre gestores e a indisponibilidade de recursos financeiros são barreiras que precisam ser superadas. Para isso, foram definidas cinco prioridades:
- 1ª prioridade: Incorporar a assistência oncológica aos planos de preparação e resposta a emergências, com pactuação entre União, Estados e municípios.
- 2ª prioridade: Fortalecer e integrar os sistemas de informação em saúde, hoje fragmentados, para identificar pacientes com tratamentos pendentes e redistribuir a demanda.
- 3ª prioridade: Proteger a infraestrutura (hospitais, serviços de radioterapia, laboratórios) e a força de trabalho, preparando profissionais para atuar em condições excepcionais.
- 4ª prioridade: Planejar a recuperação da assistência com foco na equidade, priorizando pacientes com maior risco clínico, tratamentos interrompidos e dificuldades de acesso.
- 5ª prioridade: Garantir mecanismos de financiamento flexíveis para situações de emergência, permitindo a mobilização rápida de recursos e a ampliação temporária da oferta de serviços.
A implementação dessas prioridades não exige uma estrutura paralela ao SUS, mas sim o fortalecimento de mecanismos existentes, melhor coordenação regional e a integração da resiliência ao planejamento regular da saúde. A participação de pacientes e organizações da sociedade civil é crucial para identificar barreiras. Diante do aumento previsto de casos de câncer e da ocorrência de crises simultâneas, garantir a continuidade do cuidado oncológico antes, durante e após emergências é fundamental para o compromisso do SUS com a universalidade e a equidade.
Matérias originais
- SUS precisa garantir cuidado do câncer durante crises · poder360.com.br


