Brasil busca superar gargalos para se tornar polo de IA e inovação

Destaques
- •País enfrenta desafios na transição de consumidor para criador de tecnologia de IA.
- •Falta de infraestrutura e desarticulação entre academia, setor privado e governo são os principais obstáculos.
- •Iniciativas como o ACATE AI First e o uso de IA pela Vibra mostram caminhos práticos para o desenvolvimento.
O Brasil possui talentos e estratégias para o desenvolvimento de inteligência artificial (IA), mas o grande desafio é transformar planejamento em infraestrutura, capacidade tecnológica e execução efetiva. A questão central para gestores públicos é como o país pode evoluir de um mero consumidor de tecnologia estrangeira para um polo de criação e inovação, superando gargalos que vão desde a burocracia na colaboração universidade-empresa até a falta de infraestrutura de dados.
Especialistas apontam que a falta de talentos não é o principal gargalo, mas sim a desconexão entre os elos da cadeia: pesquisa, desenvolvimento, financiamento e mercado. Sem uma orquestração eficaz entre academia, setor privado, investidores e poder público, o risco de exportar cérebros e importar soluções permanece alto. A necessidade de alugar capacidade computacional em datacenters estrangeiros gera custos em dólar e latência, prejudicando a formação de cientistas de dados.
O que separa plano de execução
Para que o Brasil se torne uma referência global em IA, é necessário atuar em três frentes simultaneamente. A primeira é a relação entre universidade e empresa, que demanda regras claras para desburocratizar a colaboração e incentivar o investimento em pesquisa aplicada sem receio de questionamentos jurídicos. A segunda frente é a infraestrutura de dados, com a criação de condições para a instalação de datacenters no Brasil, incluindo incentivos fiscais e simplificação ambiental.
Por fim, as compras públicas devem ser utilizadas como alavanca de inovação. O setor jurídico, por exemplo, com seu volume de processos, seria um campo fértil para soluções de IA. No entanto, a aquisição de sistemas genéricos por meio de licitações engessadas impede o desenvolvimento de tecnologias de ponta por empresas brasileiras. A falta de infraestrutura de dados, como a necessidade de alugar capacidade computacional em datacenters estrangeiros, também é um entrave.
O laboratório que já está rodando
Enquanto o debate nacional avança, o estado de Santa Catarina demonstra um caminho prático com o programa ACATE AI First, da ACATE (Associação Catarinense de Tecnologia). O objetivo é levar 10 mil empresas catarinenses a adotarem IA como motor de inovação até 2031, focando na orquestração do ecossistema, acesso coletivo à infraestrutura de grandes modelos, troca de experiências e formação especializada. Um board com as principais entidades do setor de IA está sendo formado para alinhar a formação de talentos, pesquisa aplicada e políticas públicas.
Empresas como a Vibra já colhem frutos de iniciativas de IA. A companhia registrou um aumento de 55% na produtividade e uma redução de 23% em tarefas manuais após adotar o Microsoft 365 Copilot. A economia gerada pela automação chega a 37.920 horas por ano, com 76% dos usuários licenciados utilizando o Copilot semanalmente. A estratégia de dados e o engajamento das lideranças foram cruciais para o sucesso da adoção.
O que o gestor público pode fazer amanhã
Para gestores públicos e candidatos que desejam ir além do discurso, três decisões práticas são propostas: mapear e articular entidades que já trabalham com IA no estado ou município, removendo barreiras burocráticas; revisar leis de compras públicas para permitir a experimentação e a aquisição de inovação pelo setor público; e fortalecer a interlocução especializada, seja através de secretarias de ciência e tecnologia ou canais diretos entre inovação e secretarias-fim. A construção da infraestrutura para o futuro digital do Brasil exige decisões concretas e imediatas, replicando o que já funciona em outras regiões e evitando que planos fiquem apenas na gaveta.
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