Bolsa de Chicago planeja futuros de chips de IA, ecoando a 'crise da cebola'
Destaques
- •A Bolsa de Chicago (CME) cogita negociar contratos futuros de computação para IA, buscando padronizar o preço do aluguel de chips.
- •A iniciativa enfrenta desafios de padronização e concentração de mercado, lembrando a histórica proibição de futuros de cebola nos EUA.
- •O Brasil, com potencial em energia renovável para data centers, precisa resolver gargalos de transmissão para não virar mero espectador.
A Bolsa de Chicago (CME) estuda lançar em novembro contratos futuros de computação, apostando no preço do aluguel de chips de inteligência artificial (IA). A iniciativa, vista por alguns em Wall Street como o nascimento do "petróleo do século 21", busca criar um mercado para a capacidade de processamento de IA, que deve atrair investimentos globais de mais de US$ 1 trilhão em 2026, segundo o Goldman Sachs.
O fantasma da cebola
A proposta da CME evoca a "crise da cebola" de 1955, quando os traders Sam Siegel e Vincent Kosuga manipularam o mercado de cebolas em Chicago, chegando a controlar 99,3% dos estoques. Eles primeiro ameaçaram inundar o mercado e depois apostaram na queda, fazendo o preço despencar. A situação foi tão crítica que agricultores pagavam para descartar a colheita. A resposta foi a aprovação, em 1958, de uma lei patrocinada pelo então deputado Gerald Ford, que baniu os futuros de cebola, tornando-a a única mercadoria física proibida de ter mercado futuro nos EUA.
A lição histórica é que mercados futuros exigem produtos padronizáveis e que ninguém consiga encurralá-los. Produtos como urânio e chips de memória falharam em decolar por quebrarem uma dessas regras.
Desafios da computação para IA
No caso dos chips de IA, como os modelos H100 e B200 da Nvidia, o desafio é a concentração. A Nvidia detém cerca de 80% do mercado de aceleradores de IA, e uma única empresa em Taiwan empacota a maioria deles. Essa concentração dificulta a padronização de preços, já que empresas pagam valores muito distintos pela mesma capacidade de GPU, sem saber se fizeram um bom negócio, segundo Carmen Li, executiva da CME.
A proposta da CME visa justamente criar um índice de referência para esses custos, mas o "teste da cebola" ainda não foi aprovado devido à concentração de mercado.
O Brasil e a commodity do futuro
O Brasil tem um histórico de intervenções em commodities, como o Convênio de Taubaté em 1906, quando São Paulo comprou e estocou café para sustentar preços, terminando com a queima de milhões de sacas. Hoje, o café é precificado em Nova York e a soja em Chicago.
A commodity do século 21, a computação, é vista como energia transformada em inteligência. O Nordeste brasileiro possui excedente de energia renovável, com 80 GW em pedidos de conexão à rede para data centers, impulsionado pelo incentivo do programa Redata aprovado pelo Senado em setembro. No entanto, o gargalo de transmissão, que leva de cinco a sete anos para ser construído contra um ano e meio para um data center, pode impedir o país de aproveitar essa oportunidade.
A questão para o Brasil é se, diante do nascimento da commodity da computação, o país escolherá ser um "trader" ou um "produtor de cebolas", dependendo de como resolver seus desafios de infraestrutura.
Matérias originais
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