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Bancos privados reduzem projeção de PIB e elevam inflação para 2027

06 de novembro de 2026
Bancos privados reduzem projeção de PIB e elevam inflação para 2027

Destaques

  • •Itaú e Bradesco cortam projeção de crescimento do PIB para 0,5% e 0,4%, respectivamente, e elevam estimativas de inflação para 2027.
  • •Juros altos, endividamento e esgotamento de estímulos freiam a economia, enquanto normalização de tributos, câmbio, reforma tributária e redução de jornada pressionam a inflação.
  • •Governo Lula busca equilibrar responsabilidade fiscal com programas sociais, mas mercado financeiro cobra por corte de gastos e sinalizações mais claras.

Os bancos privados Itaú e Bradesco divulgaram relatórios de revisão de cenário que pintam um quadro desafiador para 2027, o primeiro ano do novo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O Itaú, em relatório de 30 de outubro, reduziu a projeção de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) para o ano de 1,2% para 0,5% e elevou a estimativa de inflação de 4,6% para 6,1%. O Bradesco, por sua vez, divulgou nesta sexta-feira (6) que reduziu o PIB de 2027 de 1% para 0,4% e aumentou o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 4,1% para 5,3%.

O diagnóstico dos bancos aponta que juros altos por mais tempo, o endividamento elevado de famílias e empresas, e o esgotamento dos estímulos econômicos estão freando a atividade. Paralelamente, uma série de choques, como a normalização de tributos e subsídios sobre combustíveis, o câmbio mais desvalorizado, a reforma tributária e a redução da jornada de trabalho com o fim da escala 6 por 1, pressionam a inflação para bem acima do teto da meta de 4,5%.

As diferenças nas projeções de inflação entre os bancos se devem principalmente a hipóteses distintas sobre esses choques. O Bradesco considera apenas parte deles e projeta uma queda gradual do petróleo, enquanto o Itaú espera que a taxa Selic permaneça em 13,75% durante todo o ano de 2027. O Bradesco, por outro lado, projeta quatro cortes de 0,25 ponto percentual no segundo semestre, até 12,75%.

O que define um "ano difícil útil"?

A discussão central gira em torno de se 2027 será um "ano difícil útil" ou "inútil". Um ano útil seria aquele em que o governo aproveita o capital político inicial para realizar o ajuste fiscal necessário, permitindo o reequilíbrio da economia. Com contas públicas mais críveis, o prêmio de risco poderia cair, o câmbio se apreciar e a inflação ceder, abrindo espaço para o Banco Central baixar os juros de forma mais consistente. Isso facilitaria a digestão do endividamento de empresas e famílias, além de preparar o terreno para um crescimento mais robusto na segunda metade do mandato.

O precedente histórico mais lembrado de "ano difícil útil" é o do primeiro governo Lula, em 2003, quando o governo Antonio Palocci na Fazenda elevou a meta de superávit primário e o Banco Central subiu os juros, resultando em baixo crescimento inicial, mas em avanço de mais de 5% do PIB em 2004.

Por outro lado, um ano "inútil" seria aquele em que o governo resiste ao ajuste, e a economia sofre sem mudanças estruturais, configurando o início de um período prolongado de juros altos, baixo crescimento e aumento da dívida pública.

A importância da credibilidade fiscal e do Banco Central

A credibilidade do governo em relação ao Banco Central é outro fator crucial. Minar o trabalho do Comitê de Política Monetária (Copom) com a nomeação de diretores heterodoxos é visto como uma receita certa para desestabilizar a economia.

Os relatórios de Itaú e Bradesco destacam a magnitude da tarefa fiscal. O Itaú estima que o esforço fiscal para estabilizar a dívida está em torno de 4 pontos percentuais do PIB e tende a aumentar sem correções. O banco defende o controle de despesas obrigatórias e a redução de benefícios tributários. O Bradesco aponta que o cumprimento das metas fiscais tem sido obtido com deduções de despesas, o que afeta a credibilidade, e que seu cenário-base já inclui gastos prometidos na campanha, como os do Bolsa Família e do Microempreendedor Individual (MEI).

O Bradesco também delineia um caminho para o "ano útil", sugerindo iniciativas em gastos tributários, excessos da máquina pública e modulação de indexadores de gastos obrigatórios. Uma agenda crível de busca pelo centro da meta fiscal poderia aumentar a confiança na moeda, gerar apreciação cambial e permitir cortes de juros mais agressivos. O Itaú reforça que anúncios fiscais críveis são o principal fator para antecipar a queda da Selic.

Posicionamento do Governo e Debate Econômico

O presidente Lula tem buscado alinhar o discurso com a necessidade de responsabilidade fiscal, prometendo "economia arrumada" para atrair investimentos, mas afastando "fórmulas mágicas". Ministros como Dario Durigan (Fazenda) e Bruno Moretti (Planejamento) trabalham em propostas para cumprir as metas fiscais sem comprometer programas sociais. Em reunião com economistas ligados ao PT, a proposta do economista André Lara Resende de criar um órgão para gerir políticas monetária e fiscal e tabelar juros foi discutida, mas descartada por alto risco.

Lula rebateu as cobranças do mercado por cortes de gastos, afirmando que o governo tem "seriedade fiscal" e que o "pobre não pagará a conta". Ele comparou a dívida brasileira com a de países como EUA e Japão, argumentando que o país não tem um déficit fiscal tão elevado quanto se apregoa e que o problema reside mais nos juros altos do que nos gastos públicos. O presidente criticou a ideia de cortes lineares, defendendo que o ajuste fiscal inclua a redução de renúncias fiscais e a revisão de emendas parlamentares.

Apesar de reconhecer que 2026 termina "menos exitoso" do que o esperado, Lula reafirmou o princípio de gastar menos do que arrecada, mantendo a responsabilidade social. A equipe econômica trabalha para fechar medidas que garantam o superávit primário, sinalizando para investidores que o governo buscará o ajuste fiscal necessário para a redução da dívida pública.

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