Apple censura termos políticos em teclados de iPhone, aponta pesquisa

Destaques
- •Pesquisador descobre lista interna de cerca de 100 mil palavras que o sistema de teclado da Apple evita sugerir em iPhones.
- •Termos políticos como 'ditador Trump' e 'Joe sonolento' estão entre as expressões bloqueadas, levantando debates sobre censura e transparência.
- •Apple afirma que o recurso visa evitar sugestões ofensivas, mas especialistas questionam a falta de clareza e a possibilidade de personalização.
Um pesquisador independente, Derik Kauffman, descobriu uma lista interna com aproximadamente 100 mil palavras e expressões que o sistema de teclado de iPhones da Apple evita sugerir durante a digitação. A lista, apelidada de "gray list" (lista cinzenta), impede que determinados termos apareçam nas sugestões automáticas ou sejam inseridos pelo recurso de digitação por gestos. Embora os usuários possam escrever as palavras manualmente, a descoberta levanta questões sobre censura e a influência das empresas de tecnologia na comunicação.
Entre os termos bloqueados estão referências políticas como "ditador Trump" e "Joe sonolento", apelido pejorativo para o ex-presidente dos EUA Joe Biden. A lista também inclui expressões como "conspiração de direita", "independência do Tibete" e "Irlanda Unida". Em outros idiomas, como o hindi, restrições semelhantes foram encontradas contra termos direcionados ao primeiro-ministro Narendra Modi e seu adversário Rahul Gandhi.
Como a lista secreta foi encontrada
Kauffman iniciou a investigação em setembro, após notar que o recurso de digitação por gestos apresentava dificuldades com certas expressões, como "homem branco", enquanto outras semelhantes eram processadas normalmente. Utilizando ferramentas de programação e inteligência artificial (IA), incluindo o Codex da OpenAI e o Claude Code da Anthropic, o pesquisador identificou um catálogo armazenado no sistema operacional da Apple.
A Reuters confirmou parte das descobertas em testes, onde a digitação de "Joe sonolento" frequentemente resultava em "Sleepy hope", e "ditador Trump" aparecia com o sobrenome em minúsculas e não como sugestão automática. Matt Suiche, engenheiro da empresa de segurança cibernética Tolmo, também recuperou a lista de forma independente, confirmando os achados de Kauffman.
O que diz a Apple e as preocupações levantadas
A Apple não comentou diretamente a descoberta nem explicou os critérios para a seleção das expressões políticas. A empresa afirmou à Reuters que o recurso foi desenvolvido para evitar a apresentação automática de conteúdos considerados inadequados ou ofensivos, e que os usuários podem sempre escrever as palavras que desejarem.
No entanto, Kauffman observou inconsistências, como a dificuldade em digitar "ler pornografia gay" (read gay smut) em comparação com "ler pornografia" (read smut). Ele considera o mecanismo uma forma discreta de censura, dada a influência global dos dispositivos da Apple.
David Greene, advogado da Electronic Frontier Foundation (EFF), reconheceu que a lista pode ajudar a evitar sugestões indesejadas, mas questionou a falta de transparência. Ele defende que os usuários deveriam ser informados sobre o recurso e ter a opção de personalizá-lo. A descoberta reabre o debate sobre o papel das big techs na mediação da comunicação, pois as sugestões automáticas podem influenciar sutilmente a forma como milhões de pessoas se expressam.
Matérias originais
- iPhone tem lista de 100 mil termos que não aparecem no corretor automático · olhardigital.com.br



