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Jovem negro brasileiro se torna pesquisador em Cambridge com bolsa pública

06 de novembro de 2026
Jovem negro brasileiro se torna pesquisador em Cambridge com bolsa pública

Destaques

  • •Um jovem negro brasileiro, João Raphael, iniciou uma pesquisa de doutorado na Universidade de Cambridge com bolsa financiada pela Capes, destacando a importância de políticas públicas para a internacionalização acadêmica.
  • •A experiência ressalta como ações afirmativas e o investimento em educação podem abrir portas para jovens de grupos historicamente marginalizados, combatendo desigualdades e ampliando horizontes.
  • •A iniciativa visa aprofundar o debate sobre antirracismo, colonialismo e a produção de conhecimento, buscando que trajetórias como a de João Raphael se tornem mais comuns e menos surpreendentes.

O escritor, professor e mestre em educação pela UFRJ, João Raphael (Afroliterato), iniciou em outubro uma pesquisa de doutorado como visitante na Universidade de Cambridge, no Reino Unido. A oportunidade, que ele descreve como um dos momentos mais esperados de sua trajetória acadêmica e pessoal, é viabilizada por meio de uma bolsa do projeto Educação Antirracista em Perspectiva Transnacional, financiado pela Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) no âmbito do Programa de Desenvolvimento Acadêmico Abdias Nascimento.

A experiência de João Raphael em Cambridge transcende o deslocamento físico, representando também uma conquista cultural e filosófica, especialmente para jovens negros brasileiros. Ele ressalta que sua presença na universidade não é fruto apenas de esforço individual, mas também de políticas públicas que visam o enfrentamento às desigualdades e promovem ações afirmativas na formação acadêmica e na internacionalização. A bolsa está diretamente ligada a decisões sobre o destino de recursos públicos e o acesso a oportunidades de pesquisa.

Diálogo entre Brasil e Reino Unido sobre memória e antirracismo

O projeto de doutorado de João Raphael investiga como caminhadas por lugares de memória da escravidão podem contribuir para uma educação antirracista, estabelecendo um diálogo entre experiências do Rio de Janeiro e de Cambridge. Ele busca compreender o papel de ruas, monumentos e museus na construção do aprendizado sobre o passado, mesmo quando estes o silenciam.

No Rio de Janeiro, a pesquisa foca na Pequena África, reconhecendo a presença negra na formação da cidade e em suas formas de viver, criar e resistir. Em Cambridge, a investigação se volta para as relações entre a universidade, suas coleções e a história colonial. O projeto Uncomfortable Cambridge, por exemplo, realiza caminhadas que discutem os vínculos locais com o colonialismo e os legados africanos nas coleções universitárias, muitas das quais chegaram durante o período colonial britânico, inclusive por meio de saques.

A perspectiva transnacional é central para o trabalho, aproximando Brasil e Reino Unido para investigar conexões históricas e formular perguntas compartilhadas, respeitando as diferenças sociais. A escravidão, o colonialismo e as resistências negras são temas que atravessaram fronteiras, e a compreensão de seus efeitos exige que as discussões também o façam.

Representatividade e condições materiais para o avanço acadêmico

João Raphael enfatiza que o Brasil é um produtor de pensamento, com movimentos negros, professores da educação básica, pesquisadores e comunidades detentores de saberes valiosos sobre o enfrentamento ao racismo. Sua experiência em Cambridge também envolve trazer essas questões, referências e práticas para dentro da universidade.

Após onze anos de docência, ele leva consigo questionamentos sobre a representação em materiais didáticos, o reconhecimento de produtores de ciência e os futuros que os estudantes conseguem imaginar ao se verem em posições de autoridade. A representatividade importa, mas precisa ser acompanhada de condições materiais concretas, como bolsas, permanência estudantil, formação em idiomas, financiamento à pesquisa e tempo para estudar.

A dimensão coletiva dessa experiência é o que João Raphael deseja preservar. Ele almeja que seus estudantes reconheçam em sua trajetória uma possibilidade real para suas vidas, sem a necessidade de acreditar que o sucesso depende unicamente da superação de obstáculos individuais. A pergunta que se torna cada vez mais importante é: o que é preciso construir para que trajetórias como a sua deixem de causar surpresa?

A resposta, segundo ele, reside em escolhas políticas contínuas, que vão além do calendário eleitoral. O antirracismo se concretiza quando o orçamento público permite que jovens negros viajem, pesquisem, ensinem e participem das decisões sobre o conhecimento produzido. Sua permanência em Cambridge amplia sua responsabilidade em contribuir para que os caminhos abertos sejam percorridos por muitos outros.

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