Agronegócio brasileiro clama por política de Estado e infraestrutura logística

Destaques
- •Setor produtivo brasileiro exige planejamento de longo prazo e investimentos em infraestrutura para manter competitividade global.
- •Falta de logística e armazenagem custa US$ 14 bilhões anuais e compromete a posição do Brasil no mercado internacional.
- •Avanços no Arco Norte e a necessidade de parcerias público-privadas são pontos-chave para o futuro do agronegócio.
Entidades representativas do agronegócio brasileiro, como a ABAG e a CNA, defendem a criação de uma política de Estado para o setor, com o objetivo de garantir continuidade e previsibilidade em áreas cruciais como crédito rural, seguro agrícola e, principalmente, infraestrutura e logística. A demanda surge diante da necessidade de investimentos de longo prazo que ultrapassam ciclos de governo e visam transformar o potencial produtivo do país em competitividade sustentável.
A falta de infraestrutura logística adequada é apontada como um dos principais gargalos. Enquanto a produção avançou para o Centro-Oeste e Norte, os investimentos em recebimento, armazenagem e escoamento da safra não acompanharam o ritmo. Um relatório do USDA alerta que, sem os investimentos necessários, a capacidade da rede logística brasileira poderá limitar o crescimento do setor até 2034. A dimensão dos investimentos necessários, estimados em R$ 282 bilhões anuais em infraestrutura de transporte e logística (2,2% do PIB), supera a capacidade do orçamento público, que em 2025 somou R$ 76,5 bilhões (0,6% do PIB).
Investimentos privados e a realidade da malha de transporte
O setor privado já é o principal motor dos investimentos em infraestrutura, respondendo por 70% dos R$ 53,6 bilhões investidos em 2025, segundo o Ministério de Portos e Aeroportos. O orçamento federal destinado ao transporte no mesmo ano foi de R$ 17,8 bilhões (0,15% do PIB). Isso evidencia o papel central das concessões, parcerias público-privadas (PPPs) e terminais de uso privado (TUPs) para ampliar a infraestrutura logística.
A precariedade da malha de transporte brasileira é um fator crítico. Das rodovias, menos de 15% são pavimentados, e 62% apresentavam deficiências em 2025, segundo a CNT. A malha ferroviária, com cerca de 30,6 mil quilômetros, teve um terço sem tráfego em 2024. No transporte hidroviário, apenas cerca de 20 mil quilômetros de rios são economicamente navegáveis.
Segurança jurídica e o peso do frete
A segurança jurídica, a estabilidade regulatória e a desburocratização são fundamentais para destravar investimentos em infraestrutura, como as concessões ferroviárias. Projetos previstos para 2026 foram reprogramados para 2027 devido a entraves como licenciamento ambiental e aprovações administrativas.
O agronegócio, que representa 25% do PIB e metade das exportações brasileiras, sofre com os altos custos de transporte. Em 2023, 69% da soja foi escoada por rodovias, com distâncias médias de até 2 mil quilômetros para rotas como Mato Grosso a Santos. O frete pode representar até 60% do valor do milho e 25% da soja em algumas operações rodoviárias. Cerca de 70% do custo de transporte da soja brasileira até a China é atribuído ao frete interno.
A falta de infraestrutura de armazenagem, com capacidade estática de 70% da produção (contra 150% nos EUA), agrava o problema, pressionando a demanda por caminhões e elevando fretes. O USDA estima que as ineficiências logísticas geraram impactos econômicos de aproximadamente US$ 14 bilhões em 2025.
Agenda de competitividade e o futuro do setor
Apesar dos desafios, a participação do Arco Norte nas exportações do agronegócio cresceu de 12% em 2010 para 35% em 2024, reduzindo custos de transporte. A integração de rodovias, ferrovias, hidrovias e armazenagem em uma rede logística eficiente é o próximo passo.
A demanda por uma política de Estado visa criar condições para investimentos, com o setor público planejando e regulando, e a iniciativa privada mobilizando capital. Sem infraestrutura adequada e continuidade, parte do valor produzido no campo continuará sendo consumida pelo custo de escoamento da safra.



