Agricultura brasileira enfrenta desafios climáticos com foco em resiliência

Destaques
- •Eventos climáticos extremos causam perdas significativas na produção agrícola brasileira, com estimativas de até 21 milhões de toneladas de soja em risco.
- •Estratégias de manejo e tecnologias, como extratos de algas e substâncias húmicas, demonstram potencial para aumentar a produtividade e mitigar os efeitos de secas e excesso de chuvas.
- •A agricultura do futuro exigirá sistemas produtivos mais resilientes, com solos funcionais e plantas equilibradas, para garantir competitividade e rentabilidade.
A agricultura brasileira enfrenta um cenário de crescente instabilidade climática, com eventos extremos como secas prolongadas e excesso de chuvas impactando diretamente a produtividade das lavouras. Um estudo da Embrapa Soja aponta que perdas de produção de soja associadas a secas representaram 11,65% da produção nacional em cinco décadas. Aplicado à safra estimada de 180,4 milhões de toneladas em 2025/26, isso equivaleria a cerca de 21 milhões de toneladas perdidas.
A safra 2026/27, por exemplo, já prevê a influência de um El Niño forte, com projeções de chuvas acima da média no Sul e períodos de estiagem e temperaturas elevadas no Centro-Norte, aumentando o risco de déficit hídrico.
Impactos da instabilidade climática na fisiologia vegetal
Sob altas temperaturas e falta de água, as plantas fecham seus estômatos para reduzir a perda hídrica, um processo mediado pelo ácido abscísico (ABA). Essa resposta, embora essencial para a sobrevivência, limita a entrada de CO₂, reduz a fotossíntese e o resfriamento da folha, levando ao estresse oxidativo e comprometendo o crescimento. Por outro lado, o excesso de chuva e a baixa luminosidade prejudicam a fotossíntese e a absorção de nutrientes pelas raízes, devido à falta de oxigênio no solo.
Em ambos os cenários, a planta direciona seus recursos para lidar com o estresse, o que limita a expressão de seu potencial produtivo. A necessidade de manejo proativo, antes que os problemas se manifestem, torna-se crucial.
Construindo resiliência do solo à planta
A resiliência do sistema produtivo começa com um solo bem estruturado, que favorece a infiltração, o armazenamento de água e o desenvolvimento das raízes. Isso garante que a planta tenha maior acesso à água em períodos de estiagem e que o solo absorva melhor o excesso de chuvas, reduzindo o escoamento superficial.
A nutrição também desempenha um papel fundamental, com a disponibilidade de nutrientes no momento certo sendo tão importante quanto a quantidade aplicada. A nutrição foliar pode complementar o manejo, auxiliando na manutenção do metabolismo e da atividade fisiológica da planta.
Tecnologias para mitigar riscos e preservar o potencial produtivo
Diante das incertezas climáticas, a adoção de tecnologias e práticas que aumentam a resiliência da lavoura é essencial. Cultivares adaptadas, plantio direto e o uso de tecnologias como microrganismos, indutores de resistência, extratos vegetais e condicionadores de solo podem integrar um programa de manejo robusto.
Estudos recentes indicam o potencial de tecnologias biológicas. Uma meta-análise global publicada em 2026 na Frontiers in Plant Science, revisando 198 artigos, mostrou que o uso de extrato de algas resultou em um incremento médio de 16,3% na produtividade. Outros estudos (Santos, 2024; Crivellaro, 2024) apontaram um aumento de até 27% na produtividade em anos de estresse hídrico com o uso de extrato de algas.
Da mesma forma, uma revisão sobre substâncias húmicas, publicada em 2026 na Plant Physiology and Biochemistry, destacou seus efeitos positivos na mitigação de danos causados por estresse abiótico, protegendo funções de membranas, transporte de íons, equilíbrio redox e fotossíntese.
Investir melhor para um futuro sustentável
O foco não deve ser apenas em investir mais ou menos, mas em investir de forma estratégica, selecionando tecnologias e práticas que entreguem retorno agronômico nas condições específicas de cada lavoura. A agricultura do presente exige sistemas preparados para conviver com os extremos climáticos.
Construir solos mais funcionais, plantas mais equilibradas e estratégias que antecipem riscos são passos fundamentais. Em um ambiente de incertezas, a produção resiliente será cada vez mais determinante para a competitividade, a rentabilidade e a permanência do agricultor na atividade.



