Seis em cada dez demitidos no Brasil mudam de carreira, aponta estudo

Destaques
- •Relatório da consultoria LHH indica que 58,3% dos profissionais brasileiros buscam novas ocupações após demissão, superando médias globais.
- •Avanço da inteligência artificial e automação são apontados como principais catalisadores para a extinção de cargos e a necessidade de transição.
- •Profissionais buscam novas áreas aproveitando competências existentes, mas podem enfrentar redução salarial inicial e desafios na adaptação.
Cerca de seis em cada dez profissionais demitidos no Brasil (58,3%) migram para funções totalmente novas após a demissão, um índice ligeiramente acima da média global (57,7%). O dado é de um relatório sobre transição de carreira 2026 da consultoria LHH, que analisou mais de 418 mil profissionais no mundo. O mercado brasileiro se destaca por estar à frente de países como Estados Unidos (56,9%) e Japão (55,6%), mas fica atrás de nações europeias como Alemanha (70,9%) e Espanha (68,4%).
A pesquisa aponta que a transição de carreira deixou de ser um evento pontual para se tornar um componente estrutural do mercado de trabalho. Quase 80% (78%) das demissões globais foram recorrentes, com pressões distribuídas entre o avanço da inteligência artificial (IA) e automação, a incompatibilidade de competências e operações de fusões e aquisições.
IA e automação impulsionam mudanças
Segundo a diretora de transição de carreira da LHH, Patrícia Paniquar, a tecnologia e a IA são os principais catalisadores da extinção de muitas posições, forçando os profissionais a buscar novas oportunidades em áreas diferentes das que ocupavam. Ela compara a visão de carreira de uma escada para um movimento de teias, onde migrações não são necessariamente jornadas de ascensão contínua.
Para o Brasil, Paniquar espera um aumento significativo na taxa de transição nos próximos anos, à medida que a IA for incorporada à rotina das organizações. Ela ressalta que o ritmo de transição vem aumentando, mas o país ainda não está entre os maiores volumes, pois a IA não está sendo utilizada em sua máxima potência.
Impacto em cargos e novas trajetórias
As posições mais impactadas pela automação e IA incluem as administrativas e operacionais, chegando até a média gerência. Exemplos citados são representante de vendas, analista de cadeia de suprimentos, atendimento ao cliente, consultor de projeto e coordenador de marketing. No atendimento ao cliente, a taxa de transição global atinge 90,15%, com apenas 9,85% retornando à mesma função.
Ao mudar de carreira, profissionais buscam funções que aproveitem suas competências. Quem deixa o atendimento ao cliente, por exemplo, migra para áreas comerciais, supply chain, gestão de operações, garantia da qualidade e contabilidade. Desenvolvedores de software que mudam de área tendem a seguir para caminhos técnicos como consultoria de projetos, engenharia de suporte de TI, análise de sistemas e análise de dados.
Desafios e adaptação no mercado
A pesquisa não quantifica a mudança salarial, mas Paniquar observa que a transição para uma nova especialidade, onde o profissional está em curva de aprendizado, pode resultar em uma redução inicial da remuneração. Ela também menciona o paradigma de empresas que ignoram o potencial de profissionais com salários mais altos, desconsiderando a disposição deles em se adequar a novas realidades.
As empresas estão começando a se adaptar, saindo de um modelo que exigia profissionais “prontos” para valorizar o desenvolvimento de novas habilidades e a mobilidade interna. Além dos desligamentos involuntários, a consultoria identificou um movimento crescente de profissionais que buscam voluntariamente mudar de carreira, sendo a falta de clareza sobre o caminho o maior obstáculo para mais da metade deles (53%).
A psicóloga Natália Toledo, que atuava no setor bancário há sete anos, decidiu mudar para a psicologia após enfrentar síndrome de burnout. A transição exigiu planejamento financeiro e disposição para abrir mão da estabilidade da CLT. Ela destaca a importância de uma rede de apoio e os desafios de administrar a própria atividade como autônoma, incluindo questões de pagamento, abertura de CNPJ e obrigações fiscais.
Natália passou a usar redes sociais para falar sobre psicologia e saúde mental, adaptando-se às ferramentas digitais. Ela relata estar realizada com a mudança, que transformou sua relação com o trabalho e proporcionou melhor administração do tempo.



