Saberes do Bumba Meu Boi são classificados como tecnologia ancestral

Destaques
- •Pesquisadora defende que bordados e cantos do Bumba Meu Boi são expressões tecnológicas ancestrais.
- •Conceitos de cosmotécnica e tecnodiversidade são usados para ampliar a visão de tecnologia.
- •Estudo sugere que saberes tradicionais movimentam a economia criativa e preservam conhecimentos.
Os conhecimentos tradicionais de bordadeiras e bordadeiros do grupo Unidos de Santa Fé, que participa da festividade do bumba meu boi em São Luís, no Maranhão, são considerados expressões tecnológicas de sua comunidade. A análise é de Marcela Fernandes, pesquisadora em arte e música e doutoranda em Mídia e Tecnologia na Universidade Estadual Paulista (Unesp), em artigo publicado no livro A arte na contemporaneidade (Ria Editorial, 2024).
Fernandes, maranhense com vivência na cultura do bumba meu boi, argumenta que o conceito de tecnologia deve ir além das inovações industriais e digitais. Ela propõe que os saberes envolvidos na produção cultural, econômica e histórica das populações também sejam reconhecidos como tecnologia. Para embasar sua tese, a pesquisadora utiliza dois conceitos do filósofo chinês Yuk Hui: cosmotécnica, que postula que cada técnica reflete a visão de mundo e os valores da cultura que a produz, e tecnodiversidade, a ideia de que não existe um único modelo universal de tecnologia.
Saberes como tecnologia ancestral
Segundo a pesquisadora, o bordado, o canto, a dança e a costura tradicionais da festividade maranhense são exemplos de tecnologias ancestrais. Essas práticas não apenas preservam conhecimentos acumulados ao longo de gerações, mas também impulsionam a economia criativa local e estruturam o ciclo anual do bumba meu boi.
Os desenhos criados nos bordados, por exemplo, carregam significados profundos, representando elementos como a colheita, a religião, a flora e até mesmo o nome da comunidade. Essas representações visuais são parte integrante da transmissão cultural e da identidade do grupo.
Ampliando o conceito de tecnologia
A pesquisa de Fernandes desafia a visão hegemônica de tecnologia, frequentemente associada a produtos de alta complexidade e origem industrial ou digital, como os desenvolvidos no Vale do Silício, nos Estados Unidos. Ao aplicar os conceitos de cosmotécnica e tecnodiversidade, ela demonstra que técnicas ancestrais possuem um valor tecnológico intrínseco.
A cosmotécnica, em particular, ajuda a entender como diferentes culturas desenvolvem suas próprias formas de interagir com o mundo e de resolver problemas, utilizando os recursos e conhecimentos disponíveis. A tecnodiversidade, por sua vez, celebra a multiplicidade de abordagens tecnológicas existentes, rejeitando a ideia de uma superioridade universal de um único modelo tecnológico.
Impacto na economia criativa
A festividade do bumba meu boi, com suas diversas manifestações artísticas e culturais, movimenta a economia criativa do Maranhão. O trabalho das bordadeiras e artesãos, por exemplo, gera renda e sustento para muitas famílias, além de manter viva uma tradição cultural rica e complexa.
A pesquisa de Marcela Fernandes, que inclui fotos de integrantes do grupo Unidos de Santa Fé em 2025, ressalta a importância de reconhecer e valorizar essas expressões culturais como formas de tecnologia. A iniciativa busca não apenas dar visibilidade a esses saberes, mas também promover uma discussão mais ampla sobre o que constitui tecnologia em diferentes contextos sociais e culturais.
Matérias originais
- Tecnologias ancestrais · revistapesquisa.fapesp.br



