Produtores rurais em revolta: campo busca regras claras diante de pressões globais
Destaques
- •Agricultores em diversas partes do mundo, incluindo Brasil, Holanda e EUA, demonstram insatisfação com políticas governamentais e pressões econômicas.
- •A China, principal comprador de soja, usa seu poder de barganha para influenciar preços, enquanto a União Europeia implementa leis antidesmatamento.
- •Brasil busca criar regras de rastreabilidade e sustentabilidade para garantir acesso a mercados internacionais e evitar tarifas, com o Congresso tendo papel crucial.
Uma onda de descontentamento do setor agropecuário, que abrange democracias de diferentes espectros ideológicos, tem se manifestado globalmente. Em 2023, um partido de agricultores obteve vitória nas eleições provinciais na Holanda. Em 2024, tratores bloquearam avenidas em Paris e Bruxelas. No Brasil, em 25 de outubro, a oposição conquistou maioria em áreas produtoras, e em 3 de novembro, estados americanos como Iowa, Kansas e Ohio, antes dominados por Donald Trump, elegeram senadores democratas. O campo, em diferentes continentes, reage a ser tratado como mero instrumento de políticas climáticas, guerras comerciais ou gratidão política.
Aritmética da insatisfação no campo
A insatisfação ruralista é alimentada por uma disparidade econômica persistente. Nos Estados Unidos, os custos de produção agrícola subiram 50% desde 2011, enquanto os preços das safras caíram 4%. No Brasil, quase um quarto da carteira de crédito rural de pessoas físicas está em situação problemática, e o seguro subsidiado atingiu menos produtores em 2025 do que no ano anterior. Produtores rurais se tornaram vulneráveis a decisões distantes, como juros em Brasília, câmbio em Nova York, clima no Pacífico e tarifas em Washington. Em municípios brasileiros onde o agronegócio representa mais da metade do PIB, o governo perdeu cerca de 8% dos votos de 2022, enquanto em regiões com menor peso do agro, a perda foi de 2%, indicando um voto local.
O poder de compra da China e as novas regras globais
A China, um player fundamental, retomou a compra de soja americana pouco antes das eleições nos EUA, após um ano de queda de 73% nas exportações. Essa ação foi interpretada como uma demonstração de força, com Pequim projetando reduzir suas importações de soja em um quarto até 2035. Em contrapartida, a União Europeia começará a aplicar sua lei antidesmatamento em 30 de dezembro, exigindo legalidade na origem dos produtos. O Brasil, por meio de guias de compra de soja com critérios como CAR em dia e ausência de desmatamento ilegal, está se posicionando na vanguarda dessa nova globalização de regras.
Desafios internos e a busca por estabilidade
A tarifa de 25% imposta ao Brasil sob a Seção 301 nos EUA, de natureza executiva, não será facilmente derrubada pelo Congresso americano. A justificativa para a tarifa, ligada à aplicação da lei contra o desmatamento ilegal no Brasil, ganha força com a nova maioria no Congresso dos EUA. O risco para o Brasil reside internamente: o Congresso eleito em outubro, com uma forte bancada do agronegócio, pode ter incentivos para anistiar o passado e flexibilizar regras presentes. A falta de políticas de Estado duradouras, como a montanha-russa do desmatamento na Amazônia e a instabilidade do Fundo Amazônia, prejudica a credibilidade internacional do país. A comparação é feita com o Plano Real e a Lei de Responsabilidade Fiscal, que ganharam estabilidade por terem apoio bipartidário.
O caminho para a previsibilidade e a corresponsabilidade
Para garantir acesso a mercados e estabilidade, o Brasil precisa transformar a rastreabilidade em infraestrutura pública, integrando sistemas como CAR, trânsito animal e cadastro fundiário. Isso provaria a origem das cargas sob regras que não possam ser suspensas por portaria. A maturidade na gestão de projetos de infraestrutura, como a hidrovia do Tapajós e a Ferrogrão, também é crucial, exigindo negociação e compensação para mitigar impactos. A Licença Ambiental Especial precisa de transparência e motivação em suas decisões. A sugestão é que a lei de rastreabilidade tenha a autoria dividida entre o governo e a bancada do agro, fortalecendo a união e o incentivo. A escolha entre ser julgado pela vontade do comprador ou por regras escritas em conjunto será decisiva nos próximos dezoito meses.



