Presidente do Paraguai, Santiago Peña, é destituído e preso

Destaques
- •Santiago Peña, eleito em 2023 e alinhado a políticas dos EUA, foi destituído por impeachment e preso em meio a investigações sobre o Ueno Bank.
- •Apesar da queda de Peña, a orientação externa do Paraguai, alinhada aos EUA, Israel e Taiwan, deve ser mantida pelo Partido Colorado.
- •A crise política paraguaia acende um alerta para líderes de direita na América do Sul, mas não deve gerar um efeito dominó imediato.
O presidente do Paraguai, Santiago Peña, eleito em abril de 2023, foi destituído do cargo por meio de um processo de impeachment no Congresso e posteriormente detido em casa. A prisão ocorreu a pedido do Ministério Público, que investiga o envolvimento de Peña com o Ueno Bank, banco digital que foi liquidado por falta de solvência, resultando no congelamento das contas de milhões de pessoas.
Peña, que iniciou uma onda de líderes de direita alinhados aos EUA na região, foi substituído por Pedro Alliana, até então vice-presidente e também membro do Partido Colorado. Analistas de relações internacionais ouvidos pela BBC News Brasil indicam que, apesar da queda de Peña, os Estados Unidos e os governos de direita na América do Sul não devem perder o apoio paraguaio à sua agenda, embora um sinal de alerta tenha sido emitido.
Alinhamento histórico do Paraguai com os EUA
O conservador Partido Colorado, que domina a política paraguaia há décadas, mantém uma orientação externa histórica alinhada aos Estados Unidos, independentemente de quem ocupe a presidência. Essa orientação se baseia em três pilares: alinhamento estrito com os EUA na segurança hemisférica, cooperação e alinhamento com Israel, e a manutenção de laços diplomáticos com Taiwan, sendo o Paraguai o único país sul-americano a reconhecer Taipei.
Sob a presidência de Peña, os laços entre americanos e paraguaios se estreitaram, atingindo níveis sem precedentes. Em 2026, foi sancionado o Acordo do Estatuto das Forças (SOFA), que autoriza e regulamenta a presença temporária de pessoal civil e militar do Pentágono e de empresas americanas no Paraguai para atividades relacionadas a treinamento e exercícios militares. O acordo concede privilégios, isenções e imunidades aos funcionários do Departamento de Defesa e membros das Forças Armadas dos EUA.
Raízes da crise paraguaia e o papel de Horácio Cartes
A crise que levou à queda de Peña tem raízes internas, ligadas a seus antigos vínculos com o grupo do Ueno Bank, suspeitas sobre a fiscalização bancária e, principalmente, o abandono pelo próprio Partido Colorado. A falência do banco e o congelamento das contas de milhões de paraguaios foram o estopim, e não debates sobre privatizações, pautas de costumes ou política externa.
A queda de Peña também está ligada à figura do ex-presidente Horácio Cartes (2013-2018), padrinho político de Peña e alvo de sanções do Departamento de Estado americano por ser considerado "significativamente corrupto". Cartes, que lidera o Partido Colorado, apoiou o processo de impeachment contra Peña, utilizando-o como um "fusível" para proteger o partido de um retrocesso político descontrolado.
Impacto na direita sul-americana e próximos passos
Para os líderes de direita de países vizinhos, como Javier Milei na Argentina, a queda de Peña deve ter pouco impacto imediato. Embora acenda um alerta, não se espera um efeito dominó contra a direita sul-americana, pois a crise paraguaia tem características próprias. A afinidade internacional com figuras como Trump pode render prestígio, mas não compensa a perda de confiança da população e da própria base.
O novo presidente, Pedro Alliana, é considerado um político de confiança da cúpula partidária, o que garante a permanência do Partido Colorado no poder até 2028. No entanto, a oposição, com nomes como Miguel Prieto e Ricardo Estigarribia, pode tentar se fortalecer aproveitando o momento de crise, mas precisará demonstrar capacidade de governar para converter a indignação em votos.


